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O caminhar como potência criativa: duas mesas da Flip para rever

Adriana Terra

22/10/2018 12h33

Arte: MZK (mkz68.tumblr.com)

É importante navegar junto à costa e observar as paisagens, mas também entender onde descer a âncora, encontrar quem mora naquelas terras, descobrir estratégias para ir ao encontro dele, aprender a cumprimentar. Sem tudo isso, construir objetos e edifícios parece uma ação com fim em si mesma, vazia de significado, incapaz de produzir mito, história, cultura. A arte de ir ao encontro de alguém produz conhecimento recíproco entre as pessoas que se movem em nosso novo mundo e nos ajuda a imaginar, com elas, uma outra maneira de habitá-lo. – "Caminhar e Parar" (Francesco Careri)

Faz alguns dias que me encontrei com o saboroso "Caminhar e Parar" (GG, 2017), do arquiteto italiano Francesco Careri. Conheci o trabalho de Careri por meio de uma amiga. Pesquisador, ele fundou em 1995, ao lado de outros artistas e arquitetos, o laboratório Stalker/Osservatorio Nomade, uma "reunião de interessados que realizam, na cidade, ações de arte pública, informal e multicultural", diz a orelha do livro.

Durante vinda ao Brasil em 1996, dentre outras atividades, o italiano participou de uma conversa na Festa Literária de Paraty, a Flip. Na mesa "Cidades Refletidas", ele falou ao lado da arquiteta e urbanista Lúcia Leitão, fundadora do Núcleo de Estudos de Subjetividade na Arquitetura (Nusarq – UFPE), sobre a experiência humana nas cidades.

Acredito que ensinar a caminhar é um grande ato de democracia. Tornar-se si mesmo na rua, se controlar com os próprios olhos, o próprio corpo e a própria presença é a única forma de segurança das nossas ruas", disse Careri.

"Andar na cidade é obrigatoriamente ter o outro em face. E isso fala de que nível de sociedade a gente tem, como ela se organizou, que valores compõem essa sociedade, quão democrática ela é", falou Lúcia Leitão.

Lendo o livro e assistindo ao vídeo, me lembrei de outra mesa da Flip muito potente sobre ruas e cidades. Convidados em 2017 a falar sobre o Rio na obra de Lima Barreto, o escritor e historiador Luiz Antonio Simas e a pesquisadora e crítica literária Beatriz Rezende lembraram o quanto o "subúrbio é apagado da memória do Rio de Janeiro", disse Simas. "Mais do que nunca, nós precisamos de alguns Lima Barreto", colocou Beatriz Rezende.

Esse convite do Lima Barreto, esse convite que ele nos faz a conhecer o subúrbio deixando de lado o exotismo turístico, resume um dos grandes gestos revolucionários deste escritor que é de sugerir que o subúrbio faz parte da cidade, e aqueles que a sociedade empurra pras margens também são cidadãos", falou o mediador Guilherme Freitas.

Em tempos de ódio e posturas antidemocráticas normalizadas, são dois vídeos que trazem não só um pensamento ousado sobre as cidades brasileiras e o modo como nos dispomos a vivê-las, mas também uma dose de otimismo ao olhar para a potência daquilo que é humano.

Sobre a autora

Adriana Terra é jornalista e gosta de escrever sobre a cidade e sobre cultura. É co-criadora da série “Pequenos Picos”, mapeamento afetivo de comércios de bairro da capital paulista, e mestranda em Estudos Culturais na EACH-USP, onde pesquisa lugares e modos de vida. Foi criada em Caieiras e há 15 anos vive no centro de São Paulo. Na zona noroeste ou na Bela Vista, sempre que dá, prefere ir caminhando.

Sobre o blog

Dicas de lugares, roteiros, curiosidades sobre bairros, entrevistas com personagens da cidade, um pouquinho de arquitetura e mais experiências em São Paulo do ponto de vista de quem caminha.