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Pequenas estratégias urbanas para tomar fôlego em São Paulo hoje

Adriana Terra

05/11/2018 08h00

Quadrinho de MZK (http://mzk68.tumblr.com) | Cortesia do artista

Outro dia estava lendo um capítulo sobre cidades e espaços de memória na coletânea de ensaios da pesquisadora e escritora argentina radicada no Brasil Maria Angélica Melendi, "Estratégias da Arte em uma Era de Catástrofes" (há mais sobre o livro, finalista do Prêmio Jabuti 2018, aqui), e fiquei pensando nos modos que encontramos de respirar melhor no espaço urbano, de manter a sanidade e a força para sobreviver, trabalhar, estudar, rir, amar, e também para nos organizar e lutar em lugares com tantos problemas visíveis, desigualdades, feridas abertas. Viver na cidade requer habilidade, artimanhas que nem sempre envolvem dinheiro, acredito.

Nas últimas semanas, em meio a trajetos diários pensando nos traumas de uma eleição com alto grau de desinformação e discurso de ódio, me dei conta de que pequenas táticas que adotamos diariamente podem ser úteis para encarar melhor os dias. Se, em uma era hiperconetada, olhar as redes sociais causa certa angústia e impotência, sair da pequena tela por algum tempo ajuda inclusive a estar melhor na hora de voltar a encará-la. Redução de danos. Fiz isso deixando o celular totalmente de lado no transporte público no último mês, abrindo um livro tanto em ônibus vazios quanto em trens lotados (alguns entretanto lotados demais para se mexer qualquer braço, é fato).

Na semana passada resolvi também descer alguns pontos de ônibus antes do meu destino, em uma tentativa de caminhar para pensar melhor enquanto observava uma casa, uma criança, uma árvore centenária disputando espaço com prédios. Pode-se dizer que existe aí certa regalia do tempo, mas por vezes trata-se também do que priorizamos, dos nossos jeitinhos. Acho que por isso as pessoas dizem: "brechas".

Uma colega me contou que gosta de se locomover de bicicleta pela cidade cantando. Quando se caminha cantando, todos olham, me disse. Já quando se está em bicicleta e se passa mais rápido, existe uma liberdade maior — "quando a pessoa vai te olhar, você já passou".

Também lembro de uma ilustradora com quem conversei há algum tempo que me contou que, em vez de fotografar, desenhar a cidade a acalmava, a fazia entrar em outro tempo, o tempo da observação, fosse aproveitando um momento na padaria diante do pingado com pão na chapa matinal, fosse no assento durante trajeto no metrô.

Um parêntese: pensando em fotografia, lembrei de uma declaração do documentarista Andrea Tonacci que dizia que não se deve sair por aí buscando a imagem, mas atentando ao olhar: "a foto é que me clica". Acho que representa bem a percepção da qual estamos falando aqui, a postura de estar aberto ao mundo externo, de se deixar afetar.

Há algum tempo, recém mudada para a Bela Vista, percebi que o garçom da lanchonete que frequento gostava de passar um tempo sentado na guia, tomando sol, após o almoço nos dias quentes de rua cheia. Assim inclusive nos tornamos mais próximos: ele me avistando e cumprimentando de longe. Já o senhor da sorveteria tinha como método a cadeira na calçada.

Nunca me esqueço de outro amigo que me revelou que, nos intervalos do seu dia de trabalho informal, jogar basquete no Parque do Ipiranga era uma terapia, e que dessa forma ele, aos 60 anos, estava sempre conhecendo pessoas de diversas idades e estilos de vida, se informando por aí, sabendo o assunto e as visões de mundo que correm nas ruas. A pauta do dia no asfalto. Foi esse mesmo amigo que me mostrou caminhos e pessoas do bairro em que vive que conheceu dessa forma, em um exercício de atenção ao redor. Como se ele guardasse o saber de uma geografia única, de lugares de aconchego e proteção.

Se isso tudo é garantia de uma vida melhor e mais empática, eu não tenho certeza. Mesmo porque, nos últimos tempos, até para os otimistas ficou puxado o exercício da admiração cotidiana, de relevar que o divertido dono de bar é também um cara que acha que as mulheres não devem ter os mesmos direitos dos homens, ou que a costureira carismática acredita que tortura é mimimi. Como seguir sabendo disso, agora escancaradamente? Talvez antes houvesse apenas a desconfiança, ou níveis de privilégio que fizessem com que nem todos se atentassem a isso, já que o ódio, a violência e o preconceito não nasceram ontem? Ou, ainda, esse cenário está superlativizado e há que se estudá-lo melhor? Não sei. Mas que, em tempos embrutecidos, mal não faz tentar manter a sanidade e a subjetividade, eu boto fé.

Sobre a autora

Adriana Terra é jornalista e gosta de escrever sobre a cidade e sobre cultura. É co-criadora da série “Pequenos Picos”, mapeamento afetivo de comércios de bairro da capital paulista, e mestranda em Estudos Culturais na EACH-USP, onde pesquisa lugares e modos de vida. Foi criada em Caieiras e há 15 anos vive no centro de São Paulo. Na zona noroeste ou na Bela Vista, sempre que dá, prefere ir caminhando.

Sobre o blog

Dicas de lugares, roteiros, curiosidades sobre bairros, entrevistas com personagens da cidade, um pouquinho de arquitetura e mais experiências em São Paulo do ponto de vista de quem caminha.