SP a Pé http://spape.blogosfera.uol.com.br Dicas de lugares, roteiros, curiosidades sobre bairros, entrevistas com personagens da cidade, um pouquinho de arquitetura e mais experiências em São Paulo do ponto de vista de quem caminha Mon, 20 May 2019 19:54:58 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 A Virada Cultural também é o que acontece entre um show e outro http://spape.blogosfera.uol.com.br/2019/05/20/a-virada-cultural-tambem-e-o-que-acontece-entre-um-show-e-outro/ http://spape.blogosfera.uol.com.br/2019/05/20/a-virada-cultural-tambem-e-o-que-acontece-entre-um-show-e-outro/#respond Mon, 20 May 2019 13:30:07 +0000 http://spape.blogosfera.uol.com.br/?p=1280

Arte: MZK

Devo começar dizendo que esse não é um texto de cobertura da Virada Cultural. Não vai ter crítica de show, debate sobre som de palco, segurança ou balanço do que ocorreu no evento (para isso, há essa reportagem aqui). Esse texto é uma percepção sobre o projeto, sobre colocar tanta coisa no espaço público em 24 horas, sobre criar esse lugar de acontecimentos. E sobre a gente pôr o pé na rua, caminhar, que são assuntos desse blog.

A Virada é um evento com uma série de shows e atrações, palcos grandes difíceis de acessar, mas a Virada é também um espaço das situações que acontecem nos percursos entre uma programação e outra, das miudezas, do acaso, do inesperado que pode acometer mesmo os mais organizados munidos de suas agendas de atrações. É espaço da apresentação de duas bailarinas no caminho entre Rincón Sapiência e Caetano Veloso, da big band tocando em frente ao Municipal, do trio de DJs da velha guarda do rap empolgando as pessoas na Sete de Abril, do samba na voz de Fabiana Cozza que ecoa na rua Direita, das projeções nos prédios da Líbero Badaró, do funk dos rádios dos ambulantes.

É espaço também do choque que não tem nada de romântico: de classes, jeitos de ver e viver o mundo. Do tanto de gente de look do dia e celular do ano frente ao tanto de gente em situação de rua (que, agora achando brechas nesse discurso, por vezes também curte as atrações). Seria bom se o choque fosse educativo, porque as ruas também são “humanizadas” por quem está ali todo dia do ano, mas em condições precárias — e artistas fizeram falas importantes referente a isso nos palcos. De toda forma, acredito sempre mais no convívio do que na distância.

A Virada são os poucos shows que a gente vê, os muitos shows que a gente perde, e os shows, os conhecidos, as situações que a gente ganha entre uma coisa e outra. Claro que dá para ir em um palco mais tranquilo, nas bordas do mapa da Virada no centro da cidade (ou mesmo fora da região) e ver três, quatro apresentações completas na sequência, e isso ser super legal. Mas sempre senti que a tônica do evento é a circulação, um movimento em que a gente vê muitos pedaços de shows. Se pode ter uma superficialidade nisso, e a insatisfação em não ter visto mais do que a gente queria, pode ter também uma satisfação em conhecer coisas, reencontrar outras, costurar com olhares, conversas esses pedacinhos de artistas cantando sons que a gente gosta na nossa cabeça.

“A gente mais caminha do que qualquer outra coisa”, me disse um conhecido após nos darmos conta de que era uma tarefa complicadíssima chegar perto do palco que queríamos. “Você só aproveita a Virada quando aproveita esses trajetos”, concluiu uma colega. “Tô entendendo que o esquema é não combinar para conseguir encontrar as pessoas”, brincou outro amigo, em seu primeiro ano no evento.

Claro que nem todo trajeto é legal: no ano passado, fiquei presa com duas amigas no público de um show gigante que eu realmente não gostaria de ver e, embora tenham surgido situações divertidas, também foi meio chato. Mas foi mais um erro de planejamento mesmo. Ao fim, pegamos um trecho bem lindo do que gostaríamos de ver.

Muito já se falou sobre dividir o projeto da Virada ao longo do ano, e também sobre descentralizar mais a programação. Entendo esses argumentos, porque a cidade é grande e tem gente o ano todo produzindo cultura nela — lembrando que existe ainda o SP na Rua. Mas também sou bastante convencida da importância de ver pessoas de todos os cantos circulando pela região central em uma noite com uma série de acontecimentos. Já ouvi que só não circula pelo centro quem tem medo da região, quem é burguês do centro expandido, mas conheço muita gente de bairros afastados que conhece pouco dali também.

Em 2017, ano em que a primeira Virada sob a gestão Dória teve modificações grandes que tiraram muitas atrações do centro e levaram para lugares como o Jockey Clube e Interlagos, lembro de ter circulado e me sentido bem triste em ver como a região estava tão vazia. Ainda assim, lembro de um sujeito dançando ao som de uma música latina, em uma manhã de chuva fina paulistana, que me fez lembrar exatamente por que eu gosto da Virada.

]]>
0
Guia quer discutir como construir uma São Paulo mais justa para as mulheres http://spape.blogosfera.uol.com.br/2019/05/13/guia-discute-como-construir-uma-sao-paulo-mais-justa-para-as-mulheres/ http://spape.blogosfera.uol.com.br/2019/05/13/guia-discute-como-construir-uma-sao-paulo-mais-justa-para-as-mulheres/#respond Mon, 13 May 2019 14:19:11 +0000 http://spape.blogosfera.uol.com.br/?p=1244

Protótipo do guia, que será ilustrado pela artista Catarina Bessel. Imagem: Divulgação.

Esperar um ônibus em uma grande avenida no fim da noite. Voltar a pé para casa sem ter de pensar muito no caminho. Ter mais creches públicas espalhadas pelo território. Ter mercados próximos de terminais de transporte. Atravessar a rua sem correr com uma criança no colo. Ver outras mulheres representadas em nomes de vias e perceber que suas trajetórias são valorizadas. Poder amamentar tranquilamente em um banco de praça.

Pode não ser óbvio para todos, mas a cidade não é vivida pelas mulheres da mesma forma que pelos homens — e, evidentemente, classe social, cor da pele, idade, identidade de gênero, orientação sexual e deficiências físicas interferem dentro desse recorte. Isso pode ser percebido em situações-problema como as descritas acima, levantadas por quem estuda o assunto: de percepções sobre segurança até um planejamento urbano que por vezes não leva em conta o ritmo de vida de mulheres que se ocupam do trabalho doméstico além do trabalho gerador de renda (lembrando que mulheres ainda são as maiores responsáveis pelos afazeres da casa), passando pela representatividade nos espaços comuns.

Pesquisa da Rede Nossa São Paulo junto ao IBOPE divulgada em março mostrou que o transporte público é o local em que as mulheres mais temem assédio. Outra pesquisa, feita pela agência Pública, revelou que 93% delas evita andar na rua à noite, e que 63% já mudou o trajeto para evitar violência de gênero. Já o Atlas da Violência de 2018 mostra como as mulheres negras são mais alvo de estupro do que as brancas.

Mesmo diante de um panorama pouco amigável, são as mulheres as que mais andam a pé e usam transporte público na capital paulista. Artigo recente da ONG Sampapé discute o fato de, apesar de serem maioria nesses deslocamentos, elas pouco decidirem sobre planejamento urbano.

Pensando na importância de evidenciar essas questões para estimular uma transformação de cenário, as mulheres do Formiga-me, plataforma de produção de conteúdo sobre o espaço público, resolveram lançar o projeto do Guia Mulheres na Cidade.

“Conversando entre a gente e com amigos, começamos a perceber que as nossas experiências não são as mesmas dos homens”, conta Carmen Guerreiro. “Acho que tem esse despertar que a gente está tendo como sociedade sobre as questões que as mulheres sofrem, de violência doméstica até o espaço da rua”, diz Fernanda Carpegiani.

Grupo em reunião para planejar o guia. Foto: Divulgação

A dupla se juntou a outros coletivos para pensar o projeto do guia, em fase de financiamento coletivo. “A gente não tem a ilusão de ter a noção do que é ser mulher como um todo. São Paulo é muito diversa e tem muitas São Paulos dentro dela. Então quando a gente decidiu falar sobre mulheres na cidade, decidiu também que não poderia ser só a gente“, explica Carmen. Entre essas parcerias, estão a escola e agência de jornalismo voltada para jovens (em especial periféricos) ÉNóis, a revista AzMina e a ONG Sampapé, além do site Papo de Homem. “Resolvemos incluir os homens no debate, porque achamos que quem faz parte do problema faz parte da solução”, diz Carmen.

A publicação deve contar com dois formatos de conteúdo: um mapeamento de mais de cem locais físicos que contemplem iniciativas feitas por mulheres com um olhar para a igualdade de gênero, em diversos setores (saúde, maternidade, educação, empregabilidade, participação social, estética); e uma série de reportagens e artigos discutindo espaço público, planejamento urbano, participação política. “A gente acredita que uma cidade melhor para mulheres é uma cidade melhor pra todo mundo”, resume Carmen.

Carmen e Fernanda frisam que essa é uma iniciativa muito aberta para a participação pública, por isso o formato do financiamento coletivo, e não vinculado a uma empresa — “inclusive a gente acha legal chamar as pessoas para apoiar, porque é uma forma delas participarem caso haja interesse pelo projeto”. O Mulheres na Cidade tem promovido ainda rodas de conversa: para os interessados tanto em saber mais sobre o guia quanto em conversar sobre gênero e cidade, a próxima ocorre no dia 25 de maio, na rua Frei Caneca, na Bela Vista.

]]>
0
Livro desenha São Paulo acidental e cotidiana a partir de uma caminhada http://spape.blogosfera.uol.com.br/2019/05/08/livro-desenha-sao-paulo-acidental-e-unica-a-partir-de-uma-caminhada/ http://spape.blogosfera.uol.com.br/2019/05/08/livro-desenha-sao-paulo-acidental-e-unica-a-partir-de-uma-caminhada/#respond Wed, 08 May 2019 13:00:24 +0000 http://spape.blogosfera.uol.com.br/?p=1220

Fachada da Sala Aberta com o livro exposto. Foto: Divulgação.

Em um dia, a ilustradora Juliana Russo teve a ideia para um livro. No dia seguinte, se propôs a sair de casa para pesquisar, nas ruas da cidade, o material para essa publicação. Caminhou de Perdizes até o Bexiga, passando por Higienópolis, Consolação, praça Roosevelt, República. Observou casas, prédios, árvores. Teve conversas rápidas com gente na rua: ambulantes, artistas, moradores, cidadão no ponto de ônibus. Ouviu diálogos, encontrou uma conhecida, tirou fotos, desenhou. Voltou com o livro pronto.

“Eu pensei: eu posso falar de infinitas coisas, mas eu quero falar do que eu tropeço, sem essa romantização e ao mesmo tempo olhando como tudo é único“, diz ela.

Desenho de Juliana Russo.

“Pequenos Acasos Cotidianos: Presentes e Desastres da Vida Urbana”, lançado com apoio do projeto Rumos, fala sobre a São Paulo de um trajeto específico pelo centro expandido, com suas grandiosidades e as pequenezas que persistem, com suas desigualdades, com alguma natureza em meio ao concreto. Fala também sobre a cidade dos detalhes, da presença — e, no caso da Juliana, essa presença é muito marcada pela ação de parar, observar e desenhar –, do olhar tanto para o que é tido como trivial como para os acidentes de percurso, os imprevistos. Nesse sentido, fala de um lugar universal, de uma postura frente ao mundo. Um jogo entre o esperado e o inesperado, entre o corriqueiro e o extraordinário, que pisar no chão, ir para a rua, nos convida a jogar.

Quando você está permeável na cidade, as coisas acontecem de outra forma. Quando a gente está querendo fluir por São Paulo, chegar logo a um lugar, é muito frustrante por causa do trânsito e tal. E quando você se propõe a se abrir para esse espaço módico que a cidade também oferece, nesses momentos a cidade se abre pra gente“, diz ela.

A ilustradora vem trabalhando com a temática do urbano há uns bons anos. Ela atuou no Cidades para Pessoas, iniciativa que surgiu em 2011 pesquisando projetos que deixam as cidades mais humanas, lançou em 2015 o livro “São Paulo Infinita” e é também integrante do Urban Sketchers, grupo que reúne desenhistas de cidades pelo mundo. Começou a se interessar pelo espaço público — da rua de casa ao outro lado da cidade — de criança, mas foi se dando conta da recorrência do tema em seu trabalho com o passar dos anos.

“É um processo da minha vida. Eu nasci em São Paulo, então acho que tive por bastante tempo uma relação mais conturbada com a cidade, e de uns vinte anos para cá eu comecei a me abrir para enxergar a cidade através da caminhada. O desenho me levou muito para a rua. Muito do que eu aprendi sobre a cidade vem de olhar”, diz ela.

Desenho de Juliana Russo.

No livro, esse olhar passa por altos muros de casarões com natureza abundante em seu interior zelados por seguranças em minúsculas guaritas na rua, pelo visual das grandes galerias do centro, por cuidadoras de idosos no parque, pelo jovem ouvindo um som sentado na praça, por outro jovem tomando geral de dois policiais, pelo vendedor de sorvetes que posa feliz para um retrato, pela banquinha de óculos do ambulante, por mensagens dos cartazes colados no centro da cidade, pela garota na porta do comércio distraída na tela do celular, pela laje cheia de plantas do boteco de esquina. Passa pela beleza e pela precariedade da cidade, “presentes e desastres”. “Acho que o livro tem a força de uma pureza”, diz Juliana.

A ilustradora está vendendo “Pequenos Acasos Cotidianos: Presentes e Desastres da Vida Urbana” (R$30) e expondo os desenhos originais do livro no espaço Sala Aberta, aberto às sextas. Para mais informações, o e-mail é: projetosalaaberta@gmail.com.

Originais do livro em exposição. Foto: Adriana Terra.

]]>
0
Quantas alcunhas e vocações cabem em uma única rua? http://spape.blogosfera.uol.com.br/2019/04/29/quantas-alcunhas-e-vocacoes-cabem-em-uma-unica-rua/ http://spape.blogosfera.uol.com.br/2019/04/29/quantas-alcunhas-e-vocacoes-cabem-em-uma-unica-rua/#respond Mon, 29 Apr 2019 13:45:04 +0000 http://spape.blogosfera.uol.com.br/?p=1202 Há alguns anos, caminhando pela região da Luz, percebi que a chamada “rua das noivas” virava, a partir de certo ponto, a rua dos manequins. Na época, fiz uma reportagem para entender como se originava aquele comércio, saber um pouco a história da rua, e logo descobri que ali também é a rua das máquinas de costura. São quase como três núcleos.

A forma como o comércio de um pedaço de organiza revela muito sobre os lugares. E a história que me foi contada sobre a São Caetano é a de que, na década de 1970, as primeiras lojas do setor dos manequins passaram a se instalar ali. Uma delas, a Equipaloja, surgiu já nos anos 1990 a partir de uma adversidade que ilustra bem as vocações dessa rua: um comerciante do setor das máquinas de costura, que já estavam pela área, teve um problema de contrato ao vender seu ponto, recebendo manequins como pagamento. Pôs para venda, e sua família atua até hoje no ramo.

Foto: Reinaldo Canato/UOL

Se um sujeito caminha só as duas ou três primeiras quadras a partir da avenida Tiradentes, pode não se dar conta que, para além dos vendedores que te convidam a provar um vestido de noiva ou dos carros antigos que estacionam por ali aos sábados, há na sequência uma dezena de vitrines com manequins variados, e outras com máquinas de costuras enfileiradas. A tríade comercial nem sempre atrai a mesma clientela, é claro, mas representa quase como se fosse um ciclo completo: vende equipamentos para costura, vende roupas, vende o expositor. Passando a avenida do Estado, a São Caetano vai acabar na rua Monsenhor Andrade, já no Brás, onde abriga lojas de roupas.

No Dicionário das Ruas, dá para a gente saber que a São Caetano, que oficialmente fica no bairro do Bom Retiro, foi aberta em 1802. “Durante muitos anos permaneceu esta rua como uma simples trilha (ou caminho) que, iniciando-se no chamado ‘Campos da Luz’ ou do ‘Guarepe’ (atual Av. Tiradentes), levava até aquele antigo hospital dedicado aos leprosos [o Hospital dos Lázaros]“, registra. Em 1881 veio a ideia do nome, homenagem a um santo da Igreja Católica, oficializado em 1916.

A rua em 1957. Foto: Folha Imagem

Conversando com o pessoal que está ali há anos, a gente fica sabendo essas outras histórias, mais recentes, ainda mais oralizadas do que escritas. Vale a caminhada — e vale lembrar que, aos sábados, a via fica bem cheia. Citei a rua em um pequeno roteiro de coisas legais para fazer pela região há alguns meses aqui.

]]>
0
A rua em que se caminha é a rua em que se aprende http://spape.blogosfera.uol.com.br/2019/04/22/a-rua-em-que-se-caminha-e-a-rua-em-que-se-aprende/ http://spape.blogosfera.uol.com.br/2019/04/22/a-rua-em-que-se-caminha-e-a-rua-em-que-se-aprende/#respond Mon, 22 Apr 2019 15:31:31 +0000 http://spape.blogosfera.uol.com.br/?p=1173

Arte: MZK (mzk68.tumblr.com)

Andando nos últimos meses pelo bairro em que moro, comecei a reparar em um simpático grupo de crianças que vai a pé para uma escola na esquina de casa, acompanhado de uma mãe. Também percebi que são muitos os pais que caminham esse trajeto com seus filhos menores no miolo da Bela Vista, região do Bexiga.

Me lembrei então de um vídeo que um amigo me enviou há um tempo, que mostra a percepção de um garoto pequeno sobre a cidade em uma rota a pé: as pessoas que ele vê, os desenhos que encontra nos muros, as dimensões. E me lembrei também de uma entrevista com a urbanista Irene Quintáns, na qual ela diz que as crianças precisam andar na cidade para serem cidadãs. Básico, nem sempre lembrado.

Bem, tudo isso para falar sobre um projeto inspirador por enxergar a rua como território de ensino, e o caminho da escola como continuação do aprendizado. E por ajudar em muitas outras coisas: relações humanas, melhor aproveitamento do tempo, menos carro na rua.

O Carona a Pé surgiu em junho de 2015, a partir da experiência da professora Carol Padilha que, ao fazer diariamente o trajeto de sua casa até o colégio em que leciona a pé, na região da Santa Cecília, começou a reparar nos alunos que via nas calçadas: um sozinho, outro com uma mãe, outro com uma babá. “A gente tinha que cumprir o mesmo horário e todo mundo ia separado. Aí resolvi convidar essas pessoas a irem comigo”, conta. “Falei com os pais, com a escola, mapeei os endereços. E vi que tinha gente que vivia ali perto que eu nem tinha visto. Pensei: será que estão fazendo de carro um trajeto tão curto?”, questiona-se. Em pouco tempo caminhando com as crianças, Carol percebeu que elas passaram a chegar mais no horário e entusiasmadas de terem companhia.

A empolgação fez a professora abrir uma plenária para os alunos opinarem sobre o projeto. Um artigo que assinou no jornal na época fez com que gente de outras escolas e lugares a contatasse interessada na experiência.

De lá para cá, o Carona a Pé se organizou para estar hoje presente em três escolas privadas em São Paulo e oito escolas municipais em Belo Horizonte, com o desejo de expandir sua atuação. Oferecendo uma alternativa a uma prática que existe em iniciativas isoladas, como a da mãe na escola vizinha da minha casa, por exemplo.

O projeto precisa ser aderido pela escola para ser bem sucedido, frisa Carol. Funciona assim: adultos da comunidade escolar, do convívio de ao menos uma das crianças, são treinados para conduzir um grupo cujas crianças moram próximas umas das outras até o colégio em que estuda, com o pessoal usando uma faixa de identificação (e, dependendo da idade e situação, caminhando de mão dada). Existe um termo de compromisso — o projeto se organizou para ter uma base legal de atuação.

Pergunto para a professora se a ideia foi de fácil assimilação entre os pais, quais as preocupações que costumam surgir. “A primeira questão que aparece é a da segurança”, conta ela. “Você tem que ir mostrando dados para as pessoas, que não é inseguro ir a pé em grupo em uma velocidade controlada, com adultos responsáveis e identificados. É mais seguro do que ir em um carro enorme com a criança em uma cadeirinha”.

Ainda que nem toda escola vá aderir ao projeto, pelos mais diversos motivos, Carol sente que uma parcela caminhando junta já provoca transformação naquele espaço. Entre os benefícios, além do revezamento de pais, pontualidade com a hora da aula e um convívio mais próximo entre os alunos, ela cita a visão delas acerca do lugar em que pisam. “É muito perceptível como muda a relação da criança com a cidade. Você começa a entender a leitura dela do espaço, e começa a mudar essa leitura também”, diz a professora. “As crianças têm que se tornar visíveis na cidade, é preciso que os adultos olhem pra elas com corresponsabilidade.”

Mas isso não é mais fácil em áreas com maior e melhor urbanização, calçadas mais largas, menos movimento ou mais sinalização? De fato, pode ser mais tranquilo, sim, e é fundamental pensar o que faz sentido em cada canto. A experiência de Carol em regiões heterogêneas, no entanto, mostra que independente da infraestrutura (que quase nunca é a devida), fazer-se presente no espaço público é importante onde quer que se ande. “Tem dois tipos de transformação: a da pessoa dentro do carro que vê as crianças andando a pé; e a de quem está na rua e começa a questionar por que há mais carro que gente, uma vez que somos todos pedestres. A gente tem certeza que isso é uma formação de cidadania“, diz a professora.

Para saber mais sobre o Carona a Pé, e acompanhar as novidades, acesse a página do projeto: www.facebook.com/caronaape.

]]>
0
Quando as pessoas ditam o ritmo da cidade http://spape.blogosfera.uol.com.br/2019/04/15/quando-as-pessoas-sao-protagonistas-da-cidade/ http://spape.blogosfera.uol.com.br/2019/04/15/quando-as-pessoas-sao-protagonistas-da-cidade/#respond Mon, 15 Apr 2019 14:18:07 +0000 http://spape.blogosfera.uol.com.br/?p=1156 Na sexta-feira passada, testemunhei uma discussão entre um pequeno grupo de ciclistas que andava pela ciclovia da avenida Paulista em um começo de noite e um motorista de dentro de um carro. Não vi exatamente o que ocorreu antes da discussão, o que posso relatar foram algumas pessoas aglomeradas em uma faixa dizendo que estavam andando ali dentro e que têm esse direito.

No mesmo dia, mais cedo, na região da avenida Brigadeiro Faria Lima, alguns patinetes na calçada tiravam fina de pedestres. Fiquei atenta para desviar.

As cenas me fizeram pensar nos protagonismos que existem no espaço urbano, e nas escalas de importância, valor, que as coisas têm. Em questão de mobilidade, acho que o pedestre vai estar sempre lá atrás. Tem uma charge muito boa que vi uma vez, postada na página da ONG SampaPé, que mostrava os carros tendo que acionar o sinal para atravessar as avenidas.

Creio que por isso mesmo a ideia de andar muito a pé parece esdrúxula para alguns. A cidade não foi desenhada para isso, não existe esse estímulo e, quando ele existe, a resistência é grande. Há um ritmo de vida, trabalho, modo de viver, imposto, padronizado — quem não o segue é vacilão. Será?

Diariamente, observando, vejo gente quebrando esses ritmos. Não o tempo todo (mesmo porque o padrão imposto interfere em nossa subsistência mesmo, no ganha pão), e nem sempre conscientemente, mas em alguns momentos, de forma natural, porque a gente traz sempre da nossa história pessoal resíduos de formas e modos de viver. Sejam os ciclistas que reivindicam seu espaço, seja quem deixa o celular de lado no transporte para ler um livro (entrando em outro tempo), seja o comerciante que para em frente de sua lojinha para tomar um sorvete.

Outro dia conheci uma mulher que me disse que havia estudado por anos tarô, mas que nunca quis receber “gente na porta da sua casa”, transformar seu saber em profissão. “Imagina se um dia eu tô mal, quero beber uma cerveja na rua e vou ter que falar sobre a vida da pessoa”, disse ela. Sem julgamento do que é certo, errado, melhor ou pior, mas achei bonito o respeito ao seu ritmo.

]]>
0
Quantas áreas verdes de São Paulo você conhece? http://spape.blogosfera.uol.com.br/2019/04/08/quantas-areas-verdes-de-sao-paulo-voce-conhece/ http://spape.blogosfera.uol.com.br/2019/04/08/quantas-areas-verdes-de-sao-paulo-voce-conhece/#respond Mon, 08 Apr 2019 14:44:07 +0000 http://spape.blogosfera.uol.com.br/?p=1141

Registro aéreo do parque Augusta em 2017. Foto: Folhapress

No último sábado (6), uma área que já começava a ser usada pela população nos últimos anos enquanto parque foi oficializada, o Parque Augusta, na Consolação. Após muita pressão de ativistas e uma disputa que vem desde 2008 — quando o então prefeito Gilberto Kassab tornou a área de utilidade pública –, a prefeitura fez um acordo com construtoras que tinham outros objetivos para o local (os urbanistas Augusta Aneas e Raquel Rolnik falam sobre a cronologia do terreno aqui).

Pensando no Parque Augusta, em quantas áreas verdes em São Paulo você já foi? Já falei aqui que acho que uma das formas de circular mais pela cidade é visitar amigos e família em outros cantos: você vê alguém querido e ainda anda por ruas em que não está habituado, toma um pingado em um bar ou padaria diferente, desce em um ponto novo. Propor-se a conhecer áreas verdes também é uma ótima desculpa.

No site da prefeitura há uma relação dos 107 parques municipais. O Parque da Cantareira (que já apareceu aqui) e o Parque Ecológico do Tietê, apesar de terem áreas grandes dentro dos limites da cidade, são estaduais, então não aparecem nessa relação. Os parques naturais — que, diferente dos urbanos, têm como finalidade principal serem áreas de conservação mais do que de lazer — ficam quase todos na zona sul, mas na zona leste, por exemplo, o Parque Fazenda do Carmo é uma grande área verde aberta para a visitação em meio a muita área construída.

Também na Leste, na Cidade Tiradentes está o Parque Linear da Consciência Negra, aberto em 2009 a fim de preservar as nascentes do Córrego Itaquera. Parques lineares são aqueles construídos ao longo de cursos d’água, normalmente mais “compridões” do que largos, como corredores.

Entre os parques com nomes curiosos, na zona sul um parque na região do Capão Redondo se chama Feitiço da Vila, em homenagem a uma canção de Noel Rosa feita para o bairro carioca de Vila Isabel. Na mesma região sul, o Parque Cantinho do Céu fica nas margens da Billings, com pista de skate e decks de madeira. Já no Jabaquara há o Parque Chuvisco, com infra infantil, e em Itaquera o Parque Raul Seixas.

Além do site da prefeitura, um lugar legal para consultar parques por regiões e bairros é o site Áreas Verdes das Cidades, que traz uma relação e informações sobre os locais: qual a estrutura, como chegar. O site tem também um mapa localizando esses espaços. Para os fãs de cartografias, de tentar entender onde a gente está, nosso entorno e como se deu — e se dá — a formação da cidade, dos rios até as ruas, a pesquisa por áreas verdes é ainda um ótimo estudo.

]]>
0
Por que o passo e o cotidiano são bons exercícios para viver as cidades http://spape.blogosfera.uol.com.br/2019/04/01/por-que-o-passo-e-o-cotidiano-sao-bons-exercicios-para-viver-as-cidades/ http://spape.blogosfera.uol.com.br/2019/04/01/por-que-o-passo-e-o-cotidiano-sao-bons-exercicios-para-viver-as-cidades/#respond Mon, 01 Apr 2019 21:51:39 +0000 http://spape.blogosfera.uol.com.br/?p=1124 Embora muito se fale dos deslocamentos, talvez o exercício que mais demande atenção da gente hoje seja o da presença. Estar em um local e conseguir enxergar a nossa volta, dar o tempo necessário para o repouso do olhar, para que as sensações venham, o corpo se aclimate, os movimentos se tornem mais leves, para que se ouça melhor, para curtir as zonas de tropeço. Tipo quando a gente acorda em uma claridade intensa e o olho precisa de um tempo para se acostumar.

Exercício difícil, acho ele primo do cotidiano e do andar a pé.

Cotidiano como forma de entender e viver as cidades — sejam aquelas onde a gente mora ou as que a gente visita — é uma coisa muito legal porque não quer dizer exatamente monotonia, marasmo, senso comum que às vezes vendem pra gente como algo a não se seguir: “faça diferente”, “largue tudo e dê a volta ao mundo”, “cada semana em uma cidade, cada mês em um país”. Conhecer o mundo e não conhecer nosso entorno, não tem nada de novo nisso. Você pode viajar várias vezes para uma cidade e ela não ser a mesma, e você pode viajar para vários cantos do mundo e eles podem parecer iguais.

Andar a pé como uma forma de olhar, o passo marcando nosso “desenho no tempo” (surrupiado de uma frase de Borges que me foi apresentada por uma amiga, a Vânia) e sendo janela para outras sensações também está nesse cotidiano ao qual me refiro, porque é algo potente travestido de banal, algo que você pode fazer em qualquer lugar e que não custa nada. O que, então, teria de tão revelador nisso?

Tendo a achar que a forma como a gente cria e recria nossa rotina, as atividades com as quais a preenchemos, é mais importante, ou mais interessante, do que a forma como a gente a “quebra”. O traço que a gente não apaga, mas contorna, puxa uma linha e forma novos desenhos, rasura para criar um desenho grandão, se afasta um pouquinho e enxerga um desenho maior, uma construção. “A vida em seus métodos diz calma”, já dizia Di Melo.

Com cada vez mais estímulos, e sendo obrigados a dançar conforme a música do mundo porque é aqui que a gente está, me parece que vai ficando raro a gente encontrar nosso ritmo nele. Admiro quem consegue, onde quer que se esteja, desenhar o cotidiano, com as variações e as repetições do seu agrado, bem como quem deixa o passo correr mais solto. Aí a dança, e o desenho, são mais bonitos.

]]>
0
Série “abre as linhas” das cidades para falar de colapso, afeto e potências http://spape.blogosfera.uol.com.br/2019/03/27/serie-documental-discute-colapso-e-potencia-das-cidades/ http://spape.blogosfera.uol.com.br/2019/03/27/serie-documental-discute-colapso-e-potencia-das-cidades/#respond Wed, 27 Mar 2019 14:05:45 +0000 http://spape.blogosfera.uol.com.br/?p=1108

Entender a importância de “ir pra rua e tratar o outro com respeito, se interessar de verdade”, diz o fotógrafo Zeca Caldeira em um dos episódios de “Linhas Abertas”. No mesmo capítulo, o artista Djan Ivson fala sobre como ele percebe o pixo diante da dimensão da vida nas cidades, do quanto observar as marquises, janelas e fachadas faz parte do dia a dia de quem picha, entendendo essa cena como uma “sociedade alternativa que criou seus próprios meios de reconhecimento e memória”, diz ele.

“Linhas Abertas” é uma série documental de oito episódios que está sendo exibida pelo Canal Curta abordando temas variados do universo das cidades, de arte visual a moradia, de trânsito a parques, com situações passadas em São Paulo mas também no Rio, em Recife, em alguns casos em comparativo com outros lugares do mundo. O fio condutor é a “linha aberta”, o canal de diálogo com potência para criar uma cidade mais humana, o que guia a narrativa.

PROMO LINHAS ABERTAS from Pacto Filmes on Vimeo.

A cidade é a coisa mais próxima das pessoas. A função de país é abstrata, o que você tem de mais concreto é a cidade, e você começa a ver que elas vão colapsando. Junto ao desenvolvimento tecnológico tão avançado, por que as cidades não conseguem melhorar?”, diz Malu Campos, produtora executiva da série, cujos episódios têm direção de vários profissionais.

“A gente começou a perceber que estava surgindo no Rio, em Recife, em SP, uma série de ONGs que estão discutindo essa questão”, explica ela o início do projeto, criação da Pacto Filmes que teve semente em uma iniciativa internacional chamada “Big Cities”, que a produtora ajudou a formatar localmente junto a TAL (Televisão América Latina), rede de intercâmbio audiovisual da qual Malu é presidente.

“A gente queria falar de mobilidade, de habitação, do ponto de vista ecológico, da violência”, diz ela. Os temas abordados em “Linhas Abertas” são pensados junto a debates sobre identidade, pertencimento e empatia que estão bem presentes hoje na sociedade.

A série tem exibição no Curta até maio. Nesta quarta-feira (27), por exemplo, vai ao ar o episódio “Cidades em Cidades: Uma história do presente”, que reflete sobre a criação de favelas, de “cidades informais”, tendo em mente tanto os desafios da implementação de políticas públicas quanto a lógica da especulação imobiliária.

]]>
0
Cinco leituras para refletir sobre as cidades (e sair caminhando) http://spape.blogosfera.uol.com.br/2019/03/18/cinco-leituras-diversas-para-refletir-sobre-as-cidades-e-sair-caminhando/ http://spape.blogosfera.uol.com.br/2019/03/18/cinco-leituras-diversas-para-refletir-sobre-as-cidades-e-sair-caminhando/#respond Mon, 18 Mar 2019 12:51:56 +0000 http://spape.blogosfera.uol.com.br/?p=1094 Na semana passada, falei sobre a Feira Cartográfica que rolou no fim de semana que passou no Sesc Pinheiros e me peguei pensando em alguns livros deliciosos e/ou informativos sobre nossa vida nas cidades e a relação que estabelecemos com elas. Fiz uma pequena lista com cinco deles, de tipos variados — tem crônica, guia, sociologia, história — e enfocando lugares distintos, para inspirar caminhadas por aí.

“O meu lugar” (ed. Mórula, 2015)
Livro delicioso para os andarilhos, reunindo crônicas sobre diversos bairros e cantos do Rio de Janeiro, com os autores escrevendo sobre seus pedaços, de coisas que os emocionam a relações da infância, de trajetos de ônibus a memórias de família. Tem o Irajá de Nei Lopes, tem a Copacabana de Luiz Antonio Simas (um dos organizadores), tem São João de Meriti de Bruna Beber, tem a Tijuca de José Trajano. Enfim, um jeito bem delicioso de ler sobre o Rio.

“Miudezas de uma cidade do interior” (Conspire Edições, 2017)
Livro delicado, editado com capricho, com escritos sobre a rotina, a vida em uma pequena cidade baiana chamada Cruz das Almas. A dimensão humana do dia a dia, o convívio, ganham destaque nas observações da autora Sarah Carneiro: da venda de geladinho, as cores da feira que tingem o cenário. Ilustrado com fotos de Luciano Fogaça.

“Escritos urbanos” (editora 34, 2000)
O livro reunindo artigos escritos entre 1985 e 2000 pelo cientista político Lúcio Kowarick é uma oportunidade de pensar as transformações da cidade de São Paulo a partir de sua dimensão política e social, com reflexões sobre moradia, produção de periferias, movimentos ativistas. Importante para entendermos como a cidade foi sendo erguida a partir de escolhas (e descasos).

“New York: the big city and its little neighbourhoods” (The NYC & Company Foundation, 2009)
Um dos livros mais legais (foto abaixo) sobre cidades que já tive em mãos, fala sobre Nova York a partir de seus pequenos comércios de bairro, subvertendo a ideia de uma metrópole se fazer a partir somente de seus grande empreendimentos, monumentos, de sua área mais nobre: é nos cantinhos que a cidade imprime sua personalidade.

“Bexiga, um bairro afro-italiano” (Annablume, 2008)
Quem mora no bairro paulistano sabe disso, mas talvez para quem não viva nele, o fato de o Bexiga ser um bairro de origem afro, onde inicialmente havia um quilombo e onde muitos negros alforriados se estabeleceram pós-assinatura da Lei Áurea, talvez seja desconhecido. Esse ótimo livro conta um pouco dessa história que ficou apagada em meio a folclorização do bairro italiano, bem forte em décadas passadas.

]]>
0