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Por uma memória diversa, grupo pesquisa e divulga patrimônio da zona leste

Adriana Terra

09/09/2019 13h19

Parte de mapa da região que integra o livro "Territórios de Ururay", com projeto gráfico de Andreia Freire

Imagine um lugar em que todos os habitantes conhecem sua história, apropriam-se dela. A possibilidade parte de uma reflexão da turismóloga Alessandra Blengini que a historiadora Patrícia Freire traz para a conversa em uma tarde de segunda-feira num sobradinho na Penha. "É um pouco difícil pensar nisso em São Paulo, por toda essa dinâmica de deslocamento que temos. Então a gente pode perguntar: quem até agora tem se apropriado dessas memórias?", questiona.

Patrícia é integrante do Ururay, coletivo formado há cinco anos que realiza ações de educação, formação, pesquisa e produção cultural, partindo da história e da cultura da região leste da capital paulistana para alimentar um debate público sobre trajetórias, modos de vida, sobre a ideia de territórios e pertencimento. Surgido como grupo de estudos, ele tem relação com uma organização mais antiga, o Movimento Cultural Penha, que começou a se desenhar em 1984.

"Queríamos discutir patrimônio falando dos usos sociais, de como a gente pode pensar a atualização deles", explica Lucas Florêncio, também historiador e membro do grupo.

Ururay quer dizer "rio dos lagartos". O nome do projeto remete ao nome que era dado para a região às margens do rio Tietê, onde os índios Guaianás se abrigaram, marco da ocupação da zona leste da cidade, em 1560, formando o Aldeamento de São Miguel. Entre as ações que o grupo de pesquisadores já fez estão livro, documentário e exposição chamados "Territórios de Ururay", cuja mostra itinerou por São Paulo no Centro Cultural da Penha, na Casa da Cultura Dona Yayá e nos campi da Unifesp — universidade onde parte dos integrantes do grupo estuda ou estudou.

"Quando a gente pegou a questão da zona leste foi muito para entender essa unidade da região, pensando que nesse grande território que é a ZL existem pontos que se conversam", explica Patrícia. São as conversas entre esses pontos que alimentam os roteiros e demais ações que criam. "Pensar qual é a relação da Igreja dos Homens Pretos do Rosário com a Capela de São Miguel; da Escola Amadeu Amaral ou da vila operária no Belém com a Cohab do Artur Alvim, para falar de moradia. Pensar como a gente pode fazer a história da região a partir do rio, da presença dos escravizados, dos orfanatos", explica o historiador Maurício Dias.

A arquitetura moderna da Escola Estadual Nossa Senhora da Penha | Foto: Adriana Terra

No "Territórios de Ururay", eles abordam os 13 patrimônios tombados ou em processo de tombamento da região, muitos desconhecidos até mesmo de quem vive próximo a eles: Casa Sede do Sítio Mirim, Capela de São Miguel, Chácara da Biacica, Casa do Chefe da Estação, Casarão Sabbado D'Angelo, Casa Raul Seixas, Paróquia Nossa Senhora do Carmo, Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos da Penha, Escola Estadual Santos Dumont, Escola Estadual Nossa Senhora da Penha, Vila Maria Zélia, Casa do Sítio Tatuapé e Sede do Sítio Capão.

"A zona leste sempre teve os patrimônios, mas parecia que a memória estava só no centro", diz o geógrafo Julio Marcelino. "Sempre se fala dessa memória única no território. Em São Paulo é a do italiano. Tem sim o italiano, mas tem também o português, o negro, o indígena", coloca. "E mesmo o indígena tem uma diversidade de memórias", completa Patrícia.

Sabe uma coisa interessante? São as rugosidades que ficam no território. Na Liberdade tem a capelinha dos Aflitos. Isso tudo é do período que a Liberdade era distrito da Glória. No Bexiga você tem a Vai-Vai, o córrego. Você não consegue apagar tudo – Júlio Marcelino, geógrafo

Outra parte de mapa da região que integra o livro "Territórios de Ururay", com projeto gráfico de Andreia Freire

A historiadora percebe esse movimento de mais grupos como o que integra — e de mais pessoas interessadas em olhar a cidade com atenção –, como um processo. "Eu acho que as narrativas hegemônicas, sejam elas quais forem, estão sendo sobrepostas por outras camadas. É a diversidade de ações que vai promover a diversidade de compreensão dos territórios", diz ela. "Em São Paulo, onde a questão do dinheiro é forte, o que é muito bem produzido domina a comunicação. Então, quando falamos de projetos de patrimônio, temos de ter dinheiro para essas áreas. E que elas atendam cada vez mais às várias narrativas. Todas as memórias têm de ter espaço."

A demolição de uma vila operária da década de 1950 na semana passada no Tatuapé esquentou um debate sobre memória na cidade. "Uma cidade que não tem ponto de referência, que não tem identidade, memória, é uma sociedade, e uma cidade, que não tem futuro, porque a gente tem futuro quando tem raízes", diz o urbanista Nabil Bonduki no documentário do projeto (trailer abaixo; o filme completo pode ser visto aqui).

"Acho que essa é uma discussão que a gente está vendo agora, a de que sempre existe uma política de memória", diz Maurício. O historiador cita dois casos vividos pelo coletivo que mostram como o conhecimento muda a relação com a história. No primeiro, eles encontram uma carta do comendador Cantinho, nome de rua do bairro e figura respeitada por memorialistas da região, de compra de escravizados perto da data da Lei Áurea. "Não que precise urgentemente mudar o nome da rua, mas a partir dessa informação a gente consegue questionar", coloca. No segundo, pesquisam a pessoa que dá nome a um dos poucos logradouros que referenciam uma mulher por ali e descobrem uma parteira do início do século 20, mulher negra, nome de uma praça no centro da Penha, Micaela Vieira. "A partir daí se faz um movimento para criar um cordão de carnaval que fala sobre parto humanizado, sobre a questão da mulher, pela comunidade [da Igreja] do Rosário."

Nesse carnaval, segundo ano da saída do bloco, eles foram surpreendidos pela presença da bisneta de Micaela, que ouviu falar do cordão e decidiu ir ver do que se tratava. "É uma família centenária da Penha", conta Julio. "Veio ela, a sobrinha-neta, uma família linda e grande. Agora a gente está no processo de fazer uma entrevista com ela, mas é legal que a ancestralidade já se reconectou", diz Patrícia.

Cordão Carnavalesco Dona Micaela em 2019 | Foto: Douglas de Campos

Depois do projeto "Territórios de Ururay", o grupo vem trabalhando com a iniciativa "Heranças Periféricas". Para saber mais e acompanhar as ações, acesse: facebook.com/UrurayPatrimonio.

Sobre a autora

Adriana Terra é jornalista e gosta de escrever sobre a cidade e sobre cultura. É co-criadora da série “Pequenos Picos”, mapeamento afetivo de comércios de bairro da capital paulista, e mestranda em Estudos Culturais na EACH-USP, onde pesquisa lugares e modos de vida. Foi criada em Caieiras e há 15 anos vive no centro de São Paulo. Na zona noroeste ou na Bela Vista, sempre que dá, prefere ir caminhando.

Sobre o blog

Dicas de lugares, roteiros, curiosidades sobre bairros, entrevistas com personagens da cidade, um pouquinho de arquitetura e mais experiências em São Paulo do ponto de vista de quem caminha.