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Passeando pelas Ruas: toda a cidade é permeada de histórias

Adriana Terra

2017-12-20T18:09:20

17/12/2018 09h20

Todo mundo, de certa forma, passeia por São Paulo cotidianamente, seja para trabalhar, estudar ou, de fato, a lazer. Mas como esses deslocamentos diários podem ser mais ricos? O que há de interessante nos mais diversos pontos da cidade? Como ela pode ser de fato usada por todos os seus moradores? Por que conhecer a história de onde a gente vive é transformador? Partindo de questões como essas, um grupo que se conheceu há uma década na Universidade Federal de São Paulo, a Unifesp, começou a propor atividades voltadas à memória, patrimônio, gestão de espaços públicos e culturais, com atenção especial à zona leste.

De lá para cá, com sua oficialização em 2014, o projeto Passeando pelas Ruas carrega no nome leve um objetivo potente: fazer com que a população se aproprie e vivencie o espaço em que mora. "Frequentando suas exposições, mostras, feiras, eventos e espaços, fazendo valer seu direito à cidade regulamentado pela Constituição de 1988", explicam seus idealizadores.

Roda de conversa na Vila Maria Zélia. Foto: facebook.com/pg/passeandopelasruas

Formado pela estudante de pedagogia Paloma dos Reis e pelos historiadores Renata G. C. de Almeida, doutoranda em História pela Unicamp, e Philippe Arthur dos Reis, mestre em História e Fundamentos da Arquitetura e do Urbanismo pela FAU-USP, o grupo vem propondo nos últimos anos passeios gratuitos, "partindo de uma discussão ampla e contextualizada sobre cultura e cidade", contam.

No último dia 2 de dezembro, por exemplo, eles realizaram um percurso pela região do Pari situando patrimônios, materiais e culturais, não tão conhecidos da cidade, como a Vila Economizadora, a "rua das Noivas" (São Caetano), a Mesquita do Brás, o antigo edifício da Leiteria União e a feira boliviana da Kantuta. Em novembro, fizeram um roteiro pela Liberdade abordando a relação do nome do local com as memórias em disputa de um bairro notório pela presença oriental, mas que tem também origem negra.

Abaixo, eles contam mais sobre o projeto que, dentre outros frutos, rendeu um livro lançado em 2017.

Como vocês vêm trabalhando nos últimos anos fazendo o elo entre pesquisa e roteiros?

O Passeando pelas Ruas busca trazer aos moradores de São Paulo uma vivência em torno das construções materiais que compõem a cidade, de suas festas, suas comunidades religiosas e artísticas, suas exposições, sua diversidade gastronômica, em outras palavras, apropriar-se da cidade. Conhecer e compreender a história da cidade é algo relevante, pois permite o entendimento das permanências e mudanças ocorridas em seu espaço ao longo do tempo e, principalmente, a percepção do atual ambiente urbano, que possui múltiplos significados e experiências, diante da profusão cultural que se observa em São Paulo. Nosso projeto se coloca como um importante passo na preservação da memória do ambiente urbano paulistano, e das relações sociais desempenhadas nele.

Ao elaborarmos nossos roteiros buscamos trazer tanto espaços icônicos na cidade de São Paulo, como o MASP, quanto outros espaços que não são conhecidos pelo público, a exemplo a Capela de São Miguel ou a Vila Economizadora, assim mostramos que toda a cidade é permeada de inúmeras histórias que possibilitam com que tenhamos uma melhor compreensão sobre nossa formação atual. Distribuímos em nossos roteiros mapas, fotos, leis e textos que nos auxiliam a perceber as mudanças que aquele espaço passou ao longo do tempo, quais foram os conflitos que envolveram a ocupação daquele determinado local e sua relação com o restante da cidade.

Nos anos de 2014, 2016 e 2018 nosso projeto Passeando pelas Ruas: histórias do meu bairro e da minha cidade foi contemplado com o edital do Programa VAI I, proporcionando que tivéssemos maiores recursos para a realização das atividades. Algo que possibilitou elaborarmos um rico material didático que foi distribuído nas escolas de São Miguel Paulista, e auxilia os professores na questão de como abordar a temática patrimonial em sala de aula. Em 2014, publicamos o Catálogo Patrimonial que serviu de subsídio para o Prêmio Brasil Criativo, do Ministério da Cultura no mesmo ano. Em 2017, lançamos o livro "Passeando pelas Ruas: Reflexões sobre o patrimônio paulistano", composto por uma coletânea de artigos que abordam os roteiros realizados naquele ano. Em 2019, temos como meta a realização de um material educativo lúdico. Todos esses materiais são parte de nossa tentativa de atingir um público cada vez maior e de diversas faixas etárias.

Igreja de Nossa Senhora Rosário dos Homens Pretos, na Penha. Foto: facebook.com/passeandopelasruas

O que conheceram de mais surpreendente sobre a cidade por meio dessa pesquisa?

A cidade de São Paulo é como um caleidoscópio, que dependendo da luz e da direção em que você olha você se formam diferentes imagens sobre o espaço e você tem distintas visões de sua memória futura. Cada vez que o grupo propõe a visita a espaços fora dos roteiros tradicionais do patrimônio da cidade (como em torno do bairro do Pari ou da Vila Nitroquímica), percebemos que o público se mostra surpreendido ao se identificar com tais lugares, seja por existir conexão com seus bairros de morada, seja porque são outras formas de se encarar o patrimônio. Ou seja, se vislumbramos novos espaços e objetos materiais, trazendo-os para o cotidiano daqueles que seguem o Passeando pelas Ruas, a apropriação e discussão sobre o direito à cidade e em especial sobre o patrimônio cultural se dão de forma mais didática e proveitosa.

Como as questões do patrimônio e da mobilidade a pé se relacionam?

Todos os que passeiam pelas ruas da cidade de São Paulo cotidianamente, desempenham as mais variadas atividades tais como trabalho, estudo e lazer, e muitas das vezes não se dão conta das histórias contidas nos edifícios, nas ruas e na natureza, e acabam por naturalizar tais elementos como se eles não contribuíssem para a nossa vida. Portanto, nossos roteiros são pensados de forma a realizarmos uma simples modificação "do olhar" nos trajetos do nosso dia a dia para assim compreendermos os significados e histórias que estes representam. Assim, é imprescindível que a realização de nossos roteiros seja a pé, tanto pelo fato de possibilitar o acesso a um grande número de pessoas, que depois, tendo acesso aos nossos materiais podem realizar o roteiro de forma autônoma, quanto para modificar nossa relação com o "tempo" em uma cidade em que tudo é feito de forma acelerada.

Para vocês, qual a principal percepção sobre a cidade a partir do caminhar, o que andar a pé ensina de mais valioso?

Para além do significado do verbo que remete à ideia de andar com calma, entendemos que o caminhar é também um ato político, a partir do qual as pessoas devem se apropriar da cidade e perceber como nossas ações são resultado de decisões e escolhas feitas ao longo do tempo. Caminhar permite que se enxergue a cidade de uma forma crítica e proveitosa, de modo que se possa perceber que sua história se deu com diferentes sujeitos e com interesses diversos.

Para quem quiser saber das próximas ações, vale acompanhar a página do grupo.

Sobre a autora

Adriana Terra é jornalista e gosta de escrever sobre a cidade e sobre cultura. É co-criadora da série “Pequenos Picos”, mapeamento afetivo de comércios de bairro da capital paulista, e mestranda em Estudos Culturais na EACH-USP, onde pesquisa lugares e modos de vida. Foi criada em Caieiras e há 15 anos vive no centro de São Paulo. Na zona noroeste ou na Bela Vista, sempre que dá, prefere ir caminhando.

Sobre o blog

Dicas de lugares, roteiros, curiosidades sobre bairros, entrevistas com personagens da cidade, um pouquinho de arquitetura e mais experiências em São Paulo do ponto de vista de quem caminha.