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Cidade Ativa: falar de andar a pé é falar sobre a cidade de forma ampla

Adriana Terra

2009-07-20T18:17:18

09/07/2018 17h18

Escadaria em Pinheiros que recebeu ação Olha o Degrau | Foto: Cidade Ativa

Caminhar é a maior inspiração desse blog, mas como andar a pé pode ser melhor para todos, ainda mais em uma cidade complexa e desigual como São Paulo? Pensar a função educativa dos lugares, mapear iniciativas de mobilidade urbana, chamar a atenção para escadarias degradadas, convidar a população a olhar para os problemas de onde mora: essas são algumas das ações que uma organização chamada Cidade Ativa vem propondo nos últimos anos em São Paulo.

O projeto nasceu em 2014, a partir da experiência da arquiteta e urbanista paulista Gabriela Callejas, que viveu um período em Nova York, onde fez um mestrado e trabalhou na prefeitura local, na área de planejamento e desenho urbano. Lá, se aproximou de um movimento chamado Active Design, que inspirou o trabalho que vem desenvolvendo por aqui, buscando aproximar o cidadão da cidade, de fato.

"Caminhando você consegue se atentar mais ao que está acontecendo, se atentar para a vida do lado de fora. A gente tenta analisar e entender quais são os problemas e as potencialidades de um lugar e propor mudanças para que as pessoas vejam essas possibilidades", diz ela, que falou mais sobre o assunto nesta entrevista abaixo (e neste TED recente que você pode assistir aqui).

Gabriela, como o local em que a gente vive molda nossa forma de enxergar o mundo? E como você usa essa percepção no Cidade Ativa?
O local em que a gente vive vai falar um pouco sobre a nossa experiência, os nossos hábitos, e aquilo que é normal ou conhecido pra gente, que a gente vai ter como algo que pode ser feito, como uma opção.

O que eu quero dizer com isso é que, se eu moro numa cidade em que todo mundo anda de carro e ninguém anda de bicicleta, eu não vou entender que aquela referência é uma opção viável para eu me deslocar pela cidade.

E como a gente usa isso na Cidade Ativa? Acho que faz parte do nosso lema esse entendimento de que o lugar em que a gente mora vai moldar nossas escolhas, reconhecer quais são as opções que a gente tem pra nossas escolhas diárias, que são muitas — o que a gente come, como a gente se desloca –, então a gente tenta analisar e entender quais são os problemas e as potencialidades de um lugar e propor mudanças para que as pessoas vejam essas possibilidades. Ao mesmo tempo em que, sim, o ambiente molda o hábito, a gente sabe que quem transforma os lugares são as pessoas, então como você muda isso se a pessoa não está vendo aquela referência no dia a dia? A gente atua nessa outra ponta informando, mostrando que essa opção existe, trazendo esse conhecimento.

Arte da Cidade Ativa

Vocês trabalham com campanhas, palestras, workshops e projetos como o Como Anda, Leituras Urbanas e Olhe o Degrau. Esses projetos estão em que pé, e o que de mais interessante surgiu com eles?
O Como Anda é um projeto desenvolvido em parceria com a organização Corrida Amiga e que está bem ativo. É o terceiro ano da iniciativa, estamos tentando construir agora a continuidade dele pro ano que vem. No dia 20 de julho vai ter um encontro em São Paulo em que a gente está reunindo vários grupos pra fazer uma revisão e definir o que precisa ser feito para fortalecer a modalidade a pé no Brasil. Mapeamos pra entender quem são as organizações que atuam nesse sentido no Brasil. Esse é um dos projetos que mais me surpreendem no dia a dia, porque a gente faz um trabalho muito mais abrangente e que tem a ver com articulação, a nível local e nacional.

Eu percebi, por meio dele, que existem muitas formas da gente tratar da mobilidade a pé, que ela está em tudo, não é só calçada e acessibilidade. Isso é um requisito básico, mas para avançar é necessário entender que falar de mobilidade a pé é falar também de transporte público — porque quem anda a pé usa transporte público –, falar de acesso ao espaço público, de planejamento urbano em um nível mais macro, que é a distribuição dos usos na cidade, concentração de trabalho, de renda.

No projeto Safári Urbano também exploramos muito a coisa da mobilidade a pé — e ele é focado na calçada, mas daí a viagem que ele traz é que a gente aprofunda muito nos elementos que moldam a experiência do pedestre. Então, de novo, é sair da discussão "apenas" da calçada e falar de iluminação, fachada ativa…

Já o Olha o Degrau é outro projeto que está bem ativo, estamos concluindo um relatório da ação que fizemos em Ermelino Matarazzo junto com a comunidade escolar. E estamos na metade de uma ação na zona sul, no Jardim  Ângela, essa com apoio da ONU. Entendemos que é essencial engajar o poder local e os moradores, e vamos aprimorando essas ferramentas, fazendo projetos que sejam co-criados. A gente usou nessa ação Minecraft, o jogo, como ferramenta para falar dos problemas da escadaria e discutir as propostas de melhoria. Esse projeto começou em Pinheiros e foi sendo replicado em outros lugares. O interessante do Olha o Degrau é que o contexto local que informa muito como o processo vai se desenrolar: quem são as lideranças, quais as habilidades ali dentro.

Como vocês viabilizam estes projetos, tanto em termos financeiros quanto de autorizações de prefeituras?
A gente fez vários tipos de parcerias. Cada projeto é de um jeito, a gente já viabilizou com recurso de concurso, parceria com outras ONGs, doação de empresa, a gente já foi contratado por empresa. No Como Anda, a gente tem uma parceria com o iCS (Instituto Clima e Sociedade), editais. E acho que temos que falar que tem uma grande parte do investimento que é de horas trabalhadas de forma voluntária tanto da equipe fixa quando de pessoas que vêm para iniciativas específicas.

Sobre autorizações, a gente tenta sempre trabalhar bem próximo das prefeituras regionais, e hoje a gente senta pra conversar junto, discute o que a gente pode contemplar no nosso projeto, o que sugere que eles façam de melhoria ali como poder público. A gente consegue a aprovação daquele órgão, mas também chama pra conversar e tenta pactuar um projeto que faça sentido para todo mundo.

Pesquisa na avenida Paulista aberta aos domingos | Foto: Cidade Ativa

Uma pergunta final: qual o principal ensinamento do andar a pé, especialmente em São Paulo?
Acho que, se tivesse que resumir, os dois grandes ensinamentos seriam: em primeiro, andar a pé é uma forma de se aproximar do lugar em que a gente mora, porque caminhando você consegue se atentar mais ao que está acontecendo, se atentar para a vida do lado de fora. Entender quais são os problemas do bairro, desde ver que tem um poste quebrado até conhecer um novo comércio que abriu, ver como aquele parquinho está funcionando, ver que você pode levar sua filha lá para brincar. Você consegue conhecer melhor os seus vizinhos, cria essa conexão. E cria sua imagem do que é aquele lugar, do que ele significa pra você. Porque quando você passa de carro rápido, ou quando está trancado no condomínio, você não cria esse laço. Acho até que você se sente mais legítimo, é uma coisa que você ajuda a construir mesmo, esse sentimento de cidadania. E acho que outro ensinamento é que andar a pé é um direito — e um direito que nem todo mundo tem — e ele é essencial para te proporcionar acesso à cidade.

Acho que o ir e vir é crucial pra você acessar os serviços públicos da cidade, e a gente tem de valorizar esse modo de transporte, porque ele tem de ser feito por muita gente. Muita gente não tem outra opção de se deslocar, e não acho justo a gente investir em uma estrutura de transporte individual e não tratar com a mesma seriedade as calçadas e o restante da infra para a mobilidade a pé. E acho que falar de andar a pé é falar de acesso à cidade e de igualdade de direitos, de tratar todo mundo de forma igual.

Quem andava de carro? Pessoas com mais recursos, cujo tempo valia mais? Todo mundo é gente e tem um tempo que vale o mesmo, então acho que a gente tem de investir em toda a infra para o deslocamento, não importa que ele seja de carro, a pé ou de bicicleta.

Sobre a autora

Adriana Terra é jornalista e gosta de escrever sobre a cidade e sobre cultura. É co-criadora da série “Pequenos Picos”, mapeamento afetivo de comércios de bairro da capital paulista, e mestranda em Estudos Culturais na EACH-USP, onde pesquisa lugares e modos de vida. Foi criada em Caieiras e há 15 anos vive no centro de São Paulo. Na zona noroeste ou na Bela Vista, sempre que dá, prefere ir caminhando.

Sobre o blog

Dicas de lugares, roteiros, curiosidades sobre bairros, entrevistas com personagens da cidade, um pouquinho de arquitetura e mais experiências em São Paulo do ponto de vista de quem caminha.