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Um passeio pelos sons de São Paulo inspirado em Mário de Andrade

Adriana Terra

17/09/2018 10h19

"Ele era do futuro. O Mário era do futuro", sorri, entre uma observação e outra, a radialista e produtora cultural Biancamaria Binazzi, enquanto passeamos pela exposição que lembra os 80 anos da viagem pelo Norte e Nordeste brasileiros organizada por Mário de Andrade, chamada na época de Missão de Pesquisas Folclóricas, em uma manhã de sol no Centro Cultural São Paulo. Até dezembro, o local abriga uma programação especial abordando o legado desse percurso.

Biancamaria estuda a obra do poeta, crítico, musicólogo e etnógrafo brasileiro no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo. Na programação do CCSP, ela organiza — ao lado da radialista e mestra em políticas públicas Marta Fonterrada — uma oficina chamada "Etnografias Paulistanas", que consiste em derivas ouvindo e gravando sons diversos pela capital paulista, seguida pela criação de um programa de rádio costurando esses registros.

O trajeto que o CCSP rememora foi feito quando Mário de Andrade estava à frente do Departamento de Cultura de São Paulo, na década de 1930, inaugurando em âmbito nacional o cargo que hoje é o de secretário de Cultura. Com o objetivo de investigar os aspectos formadores de uma possível identidade brasileira, quatro pesquisadores registraram, durante trajeto de cerca de oito meses, manifestações populares em cidades de Pernambuco, Paraíba, Ceará, Piauí, Maranhão e Pará, trazendo na bagagem instrumentos, objetos de culto, anotações, registros musicais, fílmicos e fotográficos que estão no acervo da Discoteca Oneyda Alvarenga, do centro cultural que sedia a exibição.

Com curadoria de Maria Adelaide Pontes e Alberto Ikeda, a mostra é uma forma de ter contato com esse material e também de refletir sobre a retirada dele de seu território original, ainda que com fins de preservação, conta Ana Beatriz Souza, técnica da Ação Cultural do CCSP. A programação de bate-papos aborda temas urgentes como a intolerância a religiões afro-brasileiras e a questão indígena. Dispostos em gavetas de madeira no salão expositivo, trechos de aulas de Dina Dreyfus, etnologista francesa pioneira — cuja obra, em uma injustiça histórica, ficou menos conhecida que a de Claude Lévi-Strauss, com quem foi casada e viveu no Brasil na época da Missão, dialogando com as ideias de Mario –, são instrumentos para pensar sobre essas questões.

Reportagens contextualizam tanto a Missão quanto a intolerância religiosa da época dela

Na oficina co-idealizada por Biancamaria, que começa nesta quinta-feira (20) e é composta por quatro encontros que vão até 11 de outubro, serão feitos trajetos inspirados pelo "espírito marioandradeano", trazendo essa influência para uma capital paulista que hoje abriga pessoas de muitos cantos também do Brasil.

"O que a sonoridade da cidade diz sobre o nosso tempo, sobre a política, sobre o mundo? Talvez atualizar isso, gravar os sons da cidade. Os sons não só de manifestações humanas, mas o trânsito, o sabiá laranjeira que só pia às 2h da manhã, sabe?", diz Bianca. "Tem um educador musical canadense, um cara dos anos 1970, o Raymond Murray Schafer, que diz que a sociedade muda a paisagem sonora, mas a paisagem sonora também muda a sociedade. E que a gente tinha de educar nossos ouvidos para ouvir passarinho e tal. A mãe da Marta [Fonterrada, parceira de Bianca ministrando a oficina] quem trouxe esse cara para São Paulo", conta ela.

Ainda sobre a importância de estar desperto para escutar cânticos, falas, sotaques, a música que escapa e/ou faz parte das nossas rotinas, a radialista lembra um conceito de Mário de Andrade. "Ele falava de música interessada, que é o oposto do que a gente pensa. É aquela que tem uma função: são os cantos de trabalho, na lavoura, a mulher lavando a mandioca, o homem chamando o boi", conta Biancamaria.

A oficina está com inscrições encerradas, mas o programa de rádio que resultará dela será veiculado online — vale ficar de olho nesta página. Já aqui dá para ter acesso a toda a programação do evento, que ocorre até 10 de dezembro e inclui ainda alguns shows. Para além do CCSP, há agenda relacionada aos 80 anos da Missão na Biblioteca e na Casa Mário de Andrade.

Sobre a autora

Adriana Terra é jornalista e gosta de escrever sobre a cidade e sobre cultura. É co-criadora da série “Pequenos Picos”, mapeamento afetivo de comércios de bairro da capital paulista, e mestranda em Estudos Culturais na EACH-USP, onde pesquisa lugares e modos de vida. Foi criada em Caieiras e há 15 anos vive no centro de São Paulo. Na zona noroeste ou na Bela Vista, sempre que dá, prefere ir caminhando.

Sobre o blog

Dicas de lugares, roteiros, curiosidades sobre bairros, entrevistas com personagens da cidade, um pouquinho de arquitetura e mais experiências em São Paulo do ponto de vista de quem caminha.