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Dez roteiros para fazer na Jornada do Patrimônio

Adriana Terra

12/08/2019 10h59

O Cortejo da Leste será na Igreja do Rosário dos Homens Pretos | Crédito: Érica Catarina/Jornada do Patrimônio

Vai para São Paulo? Então você deve ir ao Masp, ao prédio do Banespa, subir no terraço do Copan, ir à Casa de Vidro da Lina Bo Bardi. A ideia de patrimônio em uma cidade onde o valor histórico sempre esteve ligado a dinheiro e poder vem também muito conectada com o espaço construído: arquiteturas, desenhos de edifícios, andares, vistas de pontos mais altos onde a escala humana quase se perde. Mas patrimônio não é só isso, embora o concreto ainda se imponha na memória formadora da cidade, ofuscando histórias fundamentais.

Para discutir essa memória, e esses patrimônios que podem ser materiais e imateriais, visíveis em qualquer época do ano ou arquitetados por saberes que se fazem expostos em determinados períodos, mais de mil atividades gratuitas vão compor a 5ª edição da Jornada do Patrimônio neste fim de semana, nos dias 17 e 18 de agosto.

Se no ano passado, sob tema "Uma Cidade, Muitas Mãos", o objetivo era visibilizar identidades diversas que construíram São Paulo, neste ano o mote "Memória Paulistana" aprofunda a questão do pertencimento, abordando o que se lembra e o que se esquece sobre a cidade, e o quanto essas recordações e esquecimentos não são espontâneos, mas se inserem em contextos históricos e projetos políticos.

Para dar conta da proposta, a programação ficou mais multidisciplinar. Além de dezenas de passeios a pé e de imóveis abertos, há oficinas, caminhadas fotográficas, exibição de documentários sobre a cidade, bem como atrações musicais, roteiros gastronômicos, apresentações de teatro e cortejos em todas as regiões da cidade. É uma espécie de Virada Cultural de quem gosta de saber da história da cidade e de andar a pé.

Aqui, fiz uma pequena seleção para inspirar uma pesquisa maior. Lembrando que ainda tem festa de abertura no Beco do Pinto, com DJs do Boteco Pratododia (Nuts, Carlu, Lih Lima e Julião Pimenta), e de encerramento no Mirante 9 de Julho, com a Discopédia, e cortejos de memória em todas as regiões da cidade, incluindo manifestações como Folia de Reis, Festa do Divino, Tambor de Crioula, bloco Ilu Inã, bateria da escola de samba Vai-Vai e grupos tradicionais indígenas. E que dá para aproveitar o fim de semana para conhecer espaços como a Casa Modernista e o Museu Afro-Brasil.

Morro do Cruzeiro, na zona leste | Crédito: prefeitura.sp.gov.br

Subindo o Morro do Cruzeiro: Um outro olhar de São Mateus
"O roteiro tem como objetivo a realização de caminhada rumo ao topo do Morro do Cruzeiro, localizado no Jardim Santo André, região de São Mateus. Do alto do morro serão observadas algumas das principais formas de ocupação urbana da região: moradias populares (Cingapura, Promorar Rio Claro, mutirões da COHAB); os aterros sanitários São João e Sapopemba (desativado) e os usos sociais recorrentes do próprio morro", explica o descritivo da atividade, complementando: "Cada uma dessas regiões possui histórias e memórias específicas, com experiências diversas na construção e vivências de cada um desses espaços."

Tamanduateí encontra São Caetano
Para evidenciar os rios na formação de São Paulo. "O roteiro tem como proposta a reflexão e crítica aos processos que culminaram no cenário urbano atual relacionado ao rio Tamanduateí e suas margens, dentro do limite das cidades de São Paulo e São Caetano do Sul", explica a descrição do evento. "O conteúdo do percurso acompanha o curso do Tamanduateí: inicia-se na nascente, localizada no Parque Gruta de Santa Luzia, em Mauá; percorre o rio dentro dos limites de São Caetano do Sul, discutindo a ocupação original, expansão do núcleo histórico da cidade e problemas urbanos relacionados à enchentes; e é concluído na Várzea do Carmo, retomando sua importância histórica na fundação da Vila de São Paulo e apropriação nos séculos 18, 19 e 20."

Comunidade Cultural Quilombaque
Conhece as histórias da região noroeste da cidade? A Quilombaque é uma organização sem fins lucrativos criada em 2005 em Perus, "com o envolvimento com a arte, centenas de outros jovens aderiram agregando múltiplas formas de expressões artística e manifestações culturais caracterizando e legitimando a missão da organização, fomentando uma rede cultural". Uma visita a ela é ótima oportunidade de conhecer essa região da cidade. Lá também irá rolar a Trilha da Memória Queixada, para saber da luta do operariado ali.

Jongo no espaço Quilombaque, em Perus, noroeste da cidade | Crédito: João Paulo Brito / Mural / Folhapress

Entre a várzea e o Planalto: Retóricas pedestres e imaginários urbanos
Esse roteiro aborda como a geografia da cidade "marcou uma série de circulações e imaginários urbanos ao longo do século 20: o planejamento urbano, a cultura popular, as artes e a arquitetura", diz o descritivo. "Esses imaginários são confrontados por meio de uma reflexão pedestre que quer por meio do trajeto e da caminhada fazer com o que participante reflita e vivencie essas topografias imaginárias e sociais, que ainda estão presentes na São Paulo contemporânea."

De espaços de violência a lugares de memória da ditadura militar
O percurso, fundamental para a época em que vivemos, "aborda lugares de memória da ditadura militar brasileira, que foram e cenários de violência e passaram por processos de memorialização e ativação patrimonial". O trajeto terá três paradas: o monumento a Carlos Marighella, implantado no local de sua morte; as dependências da antiga sede do DOI-CODI, local de tortura, tombado pelo CONDEPHAAT e reivindicado como memorial; e o edifício da 2ª Auditoria da Justiça Militar, que abrigará o Memorial da Luta pela Justiça.

Memórias da Fábrica da Pompeia: Nordeste e Povo Brasileiro
O quanto a cultura nordestina influenciou a obra da arquiteta Lina Bo Bardi? O passeio abordará essa questão a partir das experiências de Lina em Salvador. "Durante a visita ao Sesc Pompeia (projeto da arquiteta ítalo-brasileira), serão levantadas reflexões sobre arte popular, arquitetura brasileira e memórias do Nordeste", explica o descritivo do evento.

Sesc Pompeia | Crédito: Daigo Oliva / Folhapress

Patrimônios Negros: Dimensões Materiais e Imateriais da Ancestralidade Afro-paulistana
Desenvolvido pelo núcleo de pesquisa Angana, o roteiro na região central busca enfocar "a especificidade da atuação social, política e cultural da população negra na cidade de São Paulo, ponderando sobre sua composição étnico-racial, trazendo à tona patrimônios que evidenciem narrativas negras invisibilizadas, apresentando outros atores sociais que historicamente não tiveram suas demandas contempladas".

A questão social é um caso de polícia
Essa caminhada que parte do metrô Bresser busca refletir sobre conflitos urbanos, especulação imobiliária, ocupação do espaço, tentando entender o que seria essa "questão social" do título do passeio, uma provocação, frase supostamente dita por Washington Luiz no começo do século 20, quando prefeito da cidade. "A despeito da frase ter circulado como boato e lenda urbana, é trágico reconhecer que ela guarda ainda hoje algo de verdadeiro no que se refere à atuação do Estado tanto naquela época como nos dias atuais."

Cidade Tiradentes da Fazenda a COHAB
O que você conhece da Cidade Tiradentes? O passeio começa na casa da Fazenda, atual casa do hip hop, e "tem como objetivo observar as principais formas de ocupação do bairro que surgiu da antiga fazenda Santa Etelvina". A ideia é abordar "sua transformação em uma vila de moradores, suas primeiras casas do que hoje se tornou o maior conjunto habitacional da América Latina, trazendo a história de resistência da região visitando a Igreja Cruz das Almas, e finalizando no parque da Consciência Negra, fruto da atual luta dos moradores por lazer e cultura."

Naše malo misto – nosso pequeno lugar, Croácia paulistana no Belém
O passeio que aborda a migração croata na região começa na sede da Sociedade Amigos da Dalmácia, parceira da atividade. "Depois, seguiremos a pé por um roteiro pelo bairro do Belém/Mooca, passando por diferentes lugares que remetem à história de ocupação da zona leste da cidade."

Sobre a autora

Adriana Terra é jornalista e gosta de escrever sobre a cidade e sobre cultura. É co-criadora da série “Pequenos Picos”, mapeamento afetivo de comércios de bairro da capital paulista, e mestranda em Estudos Culturais na EACH-USP, onde pesquisa lugares e modos de vida. Foi criada em Caieiras e há 15 anos vive no centro de São Paulo. Na zona noroeste ou na Bela Vista, sempre que dá, prefere ir caminhando.

Sobre o blog

Dicas de lugares, roteiros, curiosidades sobre bairros, entrevistas com personagens da cidade, um pouquinho de arquitetura e mais experiências em São Paulo do ponto de vista de quem caminha.

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