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Atravessando o vão entre o trem e a plataforma

Adriana Terra

17/12/2019 08h00

Arte: mzk68.tumblr.com

Fiquei pensando nesses dias sobre como minha visão de cidade foi afetada, na infância e na adolescência, pelo uso do trem. Linha Rubi, antiga Marrom, para lá e para cá. Ir para a cidade comprar coisa, prestar vestibular, ir ao cinema, ver show…

Nesse caminho, tinha o que acontecia da janela para fora e o que acontecia da janela para dentro. Dois mundos que ora se comunicavam, ora indicavam um rompimento, uma aparente falta de relação que se relaciona totalmente. Tinha fábrica, natureza, favela, condomínio fechado, campo de futebol de várzea, vila operária, pichação no muro em volta do trilho, estação ao estilo inglês (oriundo da São Paulo Railway), córrego, bombs no vagão velho estacionado, capela, Fundação Casa, casarão com piscina, pedreira, prédios novos. Da janela para lá.

Da janela para dentro, era a banha do peixe boi, a estudante do ensino técnico, o surfista de trem, o nerd com a sua HQ, a coxinha quentinha comercializada dentro do isopor, o engravatado em seu primeiro emprego, a mulher cheia de sacolas indo visitar o marido encarcerado, a gente "de bem, apressada, católica, lendo jornal, satisfeita, hipócrita, com raiva por dentro, a caminho do centro". Hoje ando menos de trem, mas nas cinco ou seis vezes mensais em que estou na Rubi, vejo slime, bala de coco, pastor, MC fazendo rimas, gente muito jovem vendendo produtos e uma quantidade imensa de mulheres ambulantes (marreteiras), como não havia nos anos 1990. Vejo a cena da mulher visitando o marido encarcerado se repetir. Guarda tomando mercadoria eu sempre vi — e sei que hoje vem havendo bastante repressão. Sempre percebi também que, para maioria do pessoal que usa o trem, "deixa o sujeito trabalhar".

Já da janela do carro quando eu ia "pra cidade" com meu pai, o espaço urbano se desenhava pela rodovia, pelas obras, pelos carros e caminhões. Era uma cidade mais achatada, vamos dizer assim. Hoje, lembrando disso tudo, acho que a forma como a gente se locomove ajuda a construir nossa própria ideia de cidade. Andando de trem, parte do meu imaginário de São Paulo consistia nessas tantas coisas que falei e em outras tantas que com certeza esqueci.

Evidente que tem dias em que o conforto de um carro diante da superlotação de um trem em horário de pico represente o melhor dos mundos. Mas melhorias em um sistema que atende a maioria da população me parecem a chave para que esse desconforto diminua e não faça a gente buscar fugir dele a qualquer custo, independente se temos carro ou não.

Especialistas falam que quando a gente discute mobilidade a pé, ruas caminháveis e uma cidade mais legal para pedestres, a gente está falando também de transporte público, porque mobilidade ativa envolve isso também, tem a ver com direito à cidade. Penso que se locomover dividindo o espaço com uma galera tem ainda função social: expor as contradições e tensões, criar laços.

Já ouviu falar de festas de aniversário no busão? Ou de grupos de Whatsapp com o pessoal que pega uma mesma linha? Uma amiga carioca me contou. Rolos que só existem ali dentro ou que extrapolam a fronteira do vão entre o trem e a plataforma? Irmandade entre mulheres que se juntam para se proteger de assédio? Isso tudo existe e acho que é a cidade que, aos trancos e barrancos, em algum momento anda junta.

Sobre a autora

Adriana Terra é jornalista e gosta de escrever sobre a cidade e sobre cultura. É co-criadora da série “Pequenos Picos”, mapeamento afetivo de comércios de bairro da capital paulista, e mestranda em Estudos Culturais na EACH-USP, onde pesquisa lugares e modos de vida. Foi criada em Caieiras e há 15 anos vive no centro de São Paulo. Na zona noroeste ou na Bela Vista, sempre que dá, prefere ir caminhando.

Sobre o blog

Dicas de lugares, roteiros, curiosidades sobre bairros, entrevistas com personagens da cidade, um pouquinho de arquitetura e mais experiências em São Paulo do ponto de vista de quem caminha.

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