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No Grajaú, uma rota a pé costurada por correspondências, afetos e samba

Adriana Terra

17/06/2019 09h15

"Olá, posso te ajudar?", me pergunta o carteiro na entrada da central dos Correios na Cidade Dutra, zona sul da cidade. "Eu vim encontrar o Rubens", aviso. "Ah, o Rubão!", abre um sorriso largo. "O carteiro mais antigo da casa. Peraí que eu vou chamar."

A ideia de conversar com um carteiro para o blog foi adiada algumas vezes por eu achar que, especialmente hoje, é necessário muito cuidado para não cair em uma visão ingênua, romântica, quando não irresponsável, quando falamos de trabalho. A explosão de empregos que circulam a cidade a pé, mas com uma série de precarizações, é debate fundamental acerca da vida urbana hoje, do que entendemos como direitos e dignidade.

No entanto, justamente pensando nessa discussão, ter a dimensão da rotina de um carteiro — das profissões mais antigas do país, coberta por leis trabalhistas — também me pareceu interessante. E, claro, falar sobre conhecer a cidade, entender as ruas de um bairro como a palma da mão, perceber as mudanças na paisagem, os efeitos da urbanização, estava no horizonte desse encontro.

O paulistano Rubens Mendes, 66, entrou nos Correios em 1975. Minha terça-feira o acompanhando na área do Jardim Kika e Parque América seria um dos últimos dias de sua rotina de mais de quatro décadas; ele se aposenta nessa semana.

"Trabalho no mesmo bairro há 44 anos. Quando eu comecei a entregar correspondência aqui, moravam aproximadamente 100 mil pessoas no Grajaú. Hoje essa região toda [a subprefeitura da Capela do Socorro] tem quase um milhão. O trabalho que eu fazia sozinho foi dividido para mais de 40 carteiros", conta ele, no trajeto de ônibus da Central até sua área de trabalho à tarde; as manhãs são organizando a correspondência. O Grajaú fica a 26 km da Sé e teve um crescimento bem acentuado dos anos 1980 para cá, sendo hoje o distrito mais populoso da cidade.

A gente pensa, com certa razão, que hoje se envia menos carta. Os boletos e as encomendas online talvez tenham tomado a liderança. De fato, desde 2011 não há novo concurso para a empresa (que Bolsonaro quer privatizar, tendo recém-demitido o presidente da estatal), mas ainda tem muito papel na bolsa do carteiro: naquela terça, Rubens tinha cerca de 800 correspondências para entregar.

No caminho em zigue-zague, traçado pensado junto aos carteiros e adaptado por um sistema que permite identificar a forma mais eficaz de entrega, uma das tecnologias que Rubens viu chegar em sua trajetória, ele fala com a dona de uma loja de roupas que é sua amiga há 40 anos; é chamado efusivamente por um motorista que, de dentro do carro, quer saber se tem carta para ele hoje; diz para uma moça ansiosa na porta de casa que não há nada para ela; conversa com um homem que conheceu criança; com outro que produz uma roda de samba na praça ali perto; me apresenta a uma mulher que diz que já viveu em diversas casas da área, foi mãe e avó, sempre tricotando com Rubens — que, nesse meio tempo, também casou, teve filhos (um deles atua nos Correios, os demais em outras áreas), comprou casa, mudou de bairro, foi viver em apartamento, foi avô. É como se o carteiro ajudasse a dimensionar o tempo naquele espaço.

A comerciante Maria dos Remédios conhece Rubens há 40 anos

Da relação com o bairro em que trabalha também brotaram outras experiências. De voz firme e melódica, Rubens sempre gostou de cantar. "Em 1990, uma destinatária que é compositora me convidou para defender uma música dela em um festival. Chegamos na final: cantei no Ginásio do Ibirapuera para 15 mil pessoas, porque no dia tinha show do Moraes Moreira. E a gente ganhou", lembra. No ano seguinte, ele repetiu a história, mas dessa vez com show do Paralamas do Sucesso, "que estava começando", mensura ele.

Outra relação envolvendo música e sua circulação no bairro tem a ver com o samba, que para além de estilo musical é prática social que sustenta histórias e saberes na cidade. Quem frequenta escola de samba sabe que muitas regiões são identificadas ou ganharam notoriedade pela agremiação organizada ali, o que não ocorre por acaso. No Grajaú, ele está presente em lugares como a Estrela do Terceiro Milênio, escola fundada em 1998 e campeã do Grupo de Acesso 2 neste ano, onde Rubens integrou a ala musical por três anos ("aí tive o prazer de cantar no Anhembi, né?"), e no Pagode da 27, roda nascido em 2005. E tem ainda o rap marcando esse espaço, é claro: Criolo é da região e fala bastante sobre ela.

"A gente frequenta a mesma escola de samba", diz Claudionora Santana

"Tem uma rua em que eu trabalhava nos anos 1990 que era muito violenta, a chamada rua 27 [r. Manuel Guilherme dos Reis], onde se formou o Pagode da 27. Eu fiz uma música para eles", conta, antes de começar a cantarolar. "Quem diria, amor, quem diria, que o samba fosse superar a dor… Quem diria, amor, quem diria, que o samba fosse superar a dor, andeeei… Andei pela rua 27, corações despedaçados encontrei. Quantas mágoas e tristezas no caminho, que no meu interior sofri sozinho…".

Na hora de ir embora, Rubens me indica o melhor caminho para a estação de trem. Fico lembrando de cada pessoa com quem ele falou naquela tarde, na reação quando souberem de sua aposentadoria (ele não tinha contado ainda). Ele me avisa que marcou um churrasco com os colegas para simbolizar a data. E que a mensagem aos destinatários, com muita sabedoria, essa ele iria comunicando aos poucos.

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Sobre a autora

Adriana Terra é jornalista e gosta de escrever sobre a cidade e sobre cultura. É co-criadora da série “Pequenos Picos”, mapeamento afetivo de comércios de bairro da capital paulista, e mestranda em Estudos Culturais na EACH-USP, onde pesquisa lugares e modos de vida. Foi criada em Caieiras e há 15 anos vive no centro de São Paulo. Na zona noroeste ou na Bela Vista, sempre que dá, prefere ir caminhando.

Sobre o blog

Dicas de lugares, roteiros, curiosidades sobre bairros, entrevistas com personagens da cidade, um pouquinho de arquitetura e mais experiências em São Paulo do ponto de vista de quem caminha.

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