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Guia Prato Firmeza #3: gastronomia e lazer para valorizar cada canto de SP

Adriana Terra

30/12/2019 08h00

Um pequeno restaurante com caldos diversos e saborosos na zona sul (com destaque para o de abóbora com camarão), um armazém de orgânicos na Vila Pirajussara, aulas de dança com quitutes caseiros no Jardim Lourdes, um bar de espetinhos com sinuca em uma casa da Vila Aurora, diversos tipos de creme de cupuaçu para degustar assistindo a uma roda de coco no Taboão da Serra.

Em sua terceira edição, o Guia Prato Firmeza retorna com um convite: conhecer e valorizar locais que ficam escondidos por uma cobertura voltada ao centro e às áreas mais ricas, e perceber culturalmente os muitos bairros da cidade, entendendo comida como forma de socialização (o churrasco que faz parte da roda de samba, o yakissoba que é parada certa de quem frequenta a batalha de MCs), meio de reconhecimento e orgulho do que se produz em todas as partes da cidade.

São Paulo tem 96 distritos, mas quantos deles figuram com frequência nos guias culturais, com opções de restaurantes, bares, passeios?

"Cada Prato Firmeza teve um foco. O primeiro veio com a pauta base de chamar a atenção para a gastronomia na quebrada, o segundo teve foco na produção dos alimentos: qualidade, nível de processamento. Já nesse terceiro, houve um recorte mais voltado a lugares para ir com a família, espaços que podem receber crianças, animais, idosos, grupos grandes — e aí a gente entende família como qualquer configuração possível. E então encontramos esses lugares que têm teatro, cinema, dança, ocupação cultural, dub", conta Guilherme Petro, produtor da edição.

O Prato Firmeza é uma iniciativa da escola e agência de jornalismo focada em jovens das periferias Énois, onde Guilherme — que também é gastrólogo — estudou. Foi finalista do Prêmio Jabuti em 2017 e é feito, cada um, por uma turma diferente que entra a cada ano (conheça aqui quem faz o guia). O produtor da terceira edição destaca a importância dessa renovação para o projeto. "A cada turma nova que entra são dez olhares, dez quebradas diferentes. Desde o primeiro livro, quarenta pessoas já passaram pela produção do guia. E é muito importante estar aberto aos questionamentos e às diferentes maneiras de construir que surgem", diz.

Uma coisa que a gente sempre diz é que o Prato Firmeza tem como foco contar histórias. A comida é um meio para as narrativas. Não dar nota é uma escolha depois de estarmos muito bem embasados com o próprio jornalismo. A partir do momento que temos esse conhecimento, como podemos fazer do nosso jeito?

Além de ser um guia que estimula a conhecer mais a cidade, e a olhar as quebradas de maneira menos estereotipada, o Prato Firmeza é uma forma de valorizar bairros onde vive grande parte da população, a começar pelos seus repórteres. Não por acaso, a produção começa com um mapa afetivo de cada um. "As pessoas vão marcando lugares que tenham ligação com suas histórias, e aí já começa a surgir 'a padaria na rua debaixo de casa onde eu como desde criança', 'um lugar que eu sempre levo alguém para conhecer'. A partir daí, começamos a ter um olhar mais atento, jornalístico sobre os lugares: quem é o dono dessa padaria? E começamos a entender se tem alguma história legal para ser contada", conta Guilherme. "Quando você volta nesse estabelecimento com algo impresso com a história dele, você tem uma outra propriedade com aquela pessoa, região, e você passa a se apropriar mesmo de onde vive."

A terceira edição tem um sumário por tipo de comida e rolê. Então tem pastel, açaí, hambúrguer, feijoada, restaurante vegetariano, caldos, churrasco, comida árabe. E roteiros com cinema, roda de samba, música ao vivo, sarau, dança de salão. Tudo caminhável, quando não junto. O mapeamento dos lugares também leva em conta sugestões recebidas nas redes sociais do projeto, armazenadas em um banco de dados. "A gente sempre ouve o que as pessoas indicam, porque não dá para estar em todos os lugares. E as melhores pessoas para indicar são as moradoras", diz Guilherme.

O produtor conta também que o guia vem criando relações para além das páginas impressas. "Acho que hoje a gente se enxerga mais como um elo de ligação entre diferentes espaços, fomentando a ação e a economia", diz. Na última edição da Feira Preta, algumas barracas de comida do evento na praça Dom Orione, Bexiga, eram de empreendedores mapeados pelo guia.

"Ao longo desses três livros, temos construídos uma rede de pessoas que cozinham e fazem uma gastronomia muito paulistana, porque as quebradas de São Paulo são muito diversas. Então como essa cultura de quebrada entra também nas comidas, no jeito que a gente se alimenta, nas histórias das pessoas", reflete Guilherme.

O Prato Firmeza, mesmo para quem faz, é uma experiência geográfica: é gente do Grajaú indo para uma quebrada em Santana. As pessoas vão conhecendo novos territórios, e aí a gente vai entendendo como a cidade é muito maior, como cada quebrada tem as suas nuances, as pessoas são diferentes, então não dá para falar 'na periferia é assim', porque as periferias são diversas, e muito menos retratar um lugar específico da região central como se ele correspondesse a toda a cidade.

"A gente falar sobre alimentação nas periferias e levar isso para uma pauta de cultura é ir em um contrafluxo de uma mídia que mostra as quebradas quando acontecem tragédias. E é uma bagagem que acho que está mais próxima da maior parte das pessoas, então você conversa com mais gente. São Paulo é complexa, plural, e acho muito louco alguém intitular a cidade como capital mundial da gastronomia sendo que só uma parte dela é coberta. É um título que pode ser real se a gente olhar a cidade como um todo: ver que em Parelheiros tem gente fazendo comida orgânica, que no extremo sul tem gente vendendo hambúrguer artesanal, que em Itaquera tem um movimento de comida vegetariana forte. Porque o centro expandido é um pedaço pequeno territorialmente, e muito menor socialmente falando", diz o produtor.

A cidade de São Paulo tem 12 milhões de habitantes, sendo que 2 milhões deles — só cerca de 17% —  vivem na área central.

Quer aproveitar o recesso para conhecer lugares novos, bater perna e saborear comidas gostosas? O guia pode ser comprado aqui por R$ 20 [e tem promoção se comprar junto ao 2º número dele] e dá também para navegar por parte dele. No próximo ano, além da 4ª edição, vai rolar uma versão carioca do projeto.

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Sobre a autora

Adriana Terra é jornalista e gosta de escrever sobre a cidade e sobre cultura. É co-criadora da série “Pequenos Picos”, mapeamento afetivo de comércios de bairro da capital paulista, e mestranda em Estudos Culturais na EACH-USP, onde pesquisa lugares e modos de vida. Foi criada em Caieiras e há 15 anos vive no centro de São Paulo. Na zona noroeste ou na Bela Vista, sempre que dá, prefere ir caminhando.

Sobre o blog

Dicas de lugares, roteiros, curiosidades sobre bairros, entrevistas com personagens da cidade, um pouquinho de arquitetura e mais experiências em São Paulo do ponto de vista de quem caminha.

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