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A cidade como campo de estudos: livro compila pesquisas sobre SP

Adriana Terra

09/12/2019 17h04

Capa de Mateus Rosada

Você sabia que, antes do Playcenter, havia um parque chamado Shangai na região da baixada do Glicério, lugar em que muitas crianças e adolescentes da década de 1950 iam? E que o Campos Elíseos, apesar de construído para a elite, tinha também casas de operários e era um território de disputa imobiliária desde seus primórdios? Sabia que existe uma vila de estilo pretensamente holandês no Alto de Santana, o Jardim Dona Rosa?

Esses são alguns dos assuntos abordados no recém-lançado livro "A Cidade Interpretada", organizado por Diógenes Sousa e Fernando Atique. A publicação editada pela Unifesp traz uma seleção de artigos escritos a partir de pesquisas de integrantes de um grupo de estudos coordenado por Atique na universidade, o CAPPH.

Traz, além dos temas mencionados, textos sobre sírios-libaneses em São Paulo, sobre a influência de uma cervejaria — a Antarctica — no lazer paulistano, sobre o papel simbólico de "criar cultura" do MASP, sobre o personagem de Ramos de Azevedo e seu escritório de engenharia, aborda as memórias de um casarão fixado no imaginário popular em Itaquera.

Assuntos que podem parecer a princípio distantes mas que, com o decorrer da leitura, vão compondo caminhos que soam recorrentes no entendimento da urbanização paulistana (e dos arredores): as migrações, a especulação imobiliária, a interferência privada na esfera pública, o operariado, a segmentação social e racial, o assistencialismo, as relações de poder traduzidas na arquitetura.

"Essa seleção do livro foi quase um processo natural de pesquisas que se coadunaram para um tema maior", conta Diógenes. "Conforme a gente vai avançando, vai enxergando melhor os entrecruzamentos", diz Renata Geraissati, coautora. Ambos são historiadores.

Por ser uma pesquisa sobre a história da cidade, acaba sendo algo muito vivo – Renata Geraissati, historiadora

Diógenes escreve sobre a influência da Companhia Antarctica Paulista (hoje parte do Grupo Ambev) no urbanismo de São Paulo a partir de pesquisas prévias feitas na gradução e no mestrado, buscando entender como um patrimônio industrial se cola ao imaginário de lazer de uma época para determinada população, e interfere diretamente no desenho da cidade.

"O estádio foi um dos primeiros equipamentos urbanos que a companhia criou — primeiro para o usufruto dos seus funcionários, e já com o advento do futebol, para alugar para os primeiros clubes, no sentido de promover mais o consumo da cerveja na cidade", diz ele. "Depois, a Antarctica foi construindo outros equipamentos urbanos, como o Bosque da Saúde, salas de teatro e cinema no centro, obras de assistencialismo como hospitais (o Hospital Alemão que vira Oswaldo Cruz, o Santa Helena), escolas técnicas, principalmente para qualificar a mão de obra", explica Diógenes.

Já Renata escreve sobre a presença sírio-libanesa em São Paulo por meio de um estudo sobre o empresário Rizkallah Jorge Tahan, analisando a influência tanto material na cidade quanto no âmbito identitário da comunidade imigrante em questão. Rizkallah fundou há 121 anos a Casa da Boia, na região da 25 de março. "Ele aproveitou de um momento em que a cidade estava em crescimento, fornecendo material ou alugando espaços. Venho agora pesquisando como foi a recepção dessa comunidade na capital paulista: como as leis, a cidadania eram pensadas nesse contexto", conta.

É na centenária loja de cobre, hoje também centro cultural, que nos encontramos para conversar sobre o livro. Ela me conta que o acesso ao acervo da empresa permitiu que sua pesquisa ganhasse corpo, muito por meio da análise dos livros caixa. Já Diógenes explica que foi um acervo privado com dois volumes datilografados registrando 30 anos na vida de um funcionário da Antarctica, doado ao Movimento Cultural Penha, que permitiu que ele se aprofundasse nas histórias da cervejaria.

O que mostra como a história da cidade pode ser acessada, lida, interpretada não só a partir dos grandes feitos e figurões, mas de fragmentos, dia a dia, personagens chamados comuns.

O livro "Interpretando a Cidade" tem 156 páginas e coautoria de Carlos Thaniel Moura, Diógenes Sousa, Hennan Gessi, Lucas Florêncio Costa, Luís Fernando Simões Moraes, Luís Gustavo Pereira Ferreira, Michele Dias, Rafael Conti, Paola Pascoal, Raissa Campos Marcondes e Renata Geraissati Castro de Almeida. Pode ser baixado gratuitamente aqui –> http://bit.ly/2E2EzZy

Sobre a autora

Adriana Terra é jornalista e gosta de escrever sobre a cidade e sobre cultura. É co-criadora da série “Pequenos Picos”, mapeamento afetivo de comércios de bairro da capital paulista, e mestranda em Estudos Culturais na EACH-USP, onde pesquisa lugares e modos de vida. Foi criada em Caieiras e há 15 anos vive no centro de São Paulo. Na zona noroeste ou na Bela Vista, sempre que dá, prefere ir caminhando.

Sobre o blog

Dicas de lugares, roteiros, curiosidades sobre bairros, entrevistas com personagens da cidade, um pouquinho de arquitetura e mais experiências em São Paulo do ponto de vista de quem caminha.

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