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A rua em que se caminha é a rua em que se aprende

Adriana Terra

22/04/2019 12h31

Arte: MZK (mzk68.tumblr.com)

Andando nos últimos meses pelo bairro em que moro, comecei a reparar em um simpático grupo de crianças que vai a pé para uma escola na esquina de casa, acompanhado de uma mãe. Também percebi que são muitos os pais que caminham esse trajeto com seus filhos menores no miolo da Bela Vista, região do Bexiga.

Me lembrei então de um vídeo que um amigo me enviou há um tempo, que mostra a percepção de um garoto pequeno sobre a cidade em uma rota a pé: as pessoas que ele vê, os desenhos que encontra nos muros, as dimensões. E me lembrei também de uma entrevista com a urbanista Irene Quintáns, na qual ela diz que as crianças precisam andar na cidade para serem cidadãs. Básico, nem sempre lembrado.

Bem, tudo isso para falar sobre um projeto inspirador por enxergar a rua como território de ensino, e o caminho da escola como continuação do aprendizado. E por ajudar em muitas outras coisas: relações humanas, melhor aproveitamento do tempo, menos carro na rua.

O Carona a Pé surgiu em junho de 2015, a partir da experiência da professora Carol Padilha que, ao fazer diariamente o trajeto de sua casa até o colégio em que leciona a pé, na região da Santa Cecília, começou a reparar nos alunos que via nas calçadas: um sozinho, outro com uma mãe, outro com uma babá. "A gente tinha que cumprir o mesmo horário e todo mundo ia separado. Aí resolvi convidar essas pessoas a irem comigo", conta. "Falei com os pais, com a escola, mapeei os endereços. E vi que tinha gente que vivia ali perto que eu nem tinha visto. Pensei: será que estão fazendo de carro um trajeto tão curto?", questiona-se. Em pouco tempo caminhando com as crianças, Carol percebeu que elas passaram a chegar mais no horário e entusiasmadas de terem companhia.

A empolgação fez a professora abrir uma plenária para os alunos opinarem sobre o projeto. Um artigo que assinou no jornal na época fez com que gente de outras escolas e lugares a contatasse interessada na experiência.

De lá para cá, o Carona a Pé se organizou para estar hoje presente em três escolas privadas em São Paulo e oito escolas municipais em Belo Horizonte, com o desejo de expandir sua atuação. Oferecendo uma alternativa a uma prática que existe em iniciativas isoladas, como a da mãe na escola vizinha da minha casa, por exemplo.

O projeto precisa ser aderido pela escola para ser bem sucedido, frisa Carol. Funciona assim: adultos da comunidade escolar, do convívio de ao menos uma das crianças, são treinados para conduzir um grupo cujas crianças moram próximas umas das outras até o colégio em que estuda, com o pessoal usando uma faixa de identificação (e, dependendo da idade e situação, caminhando de mão dada). Existe um termo de compromisso — o projeto se organizou para ter uma base legal de atuação.

Pergunto para a professora se a ideia foi de fácil assimilação entre os pais, quais as preocupações que costumam surgir. "A primeira questão que aparece é a da segurança", conta ela. "Você tem que ir mostrando dados para as pessoas, que não é inseguro ir a pé em grupo em uma velocidade controlada, com adultos responsáveis e identificados. É mais seguro do que ir em um carro enorme com a criança em uma cadeirinha".

Ainda que nem toda escola vá aderir ao projeto, pelos mais diversos motivos, Carol sente que uma parcela caminhando junta já provoca transformação naquele espaço. Entre os benefícios, além do revezamento de pais, pontualidade com a hora da aula e um convívio mais próximo entre os alunos, ela cita a visão delas acerca do lugar em que pisam. "É muito perceptível como muda a relação da criança com a cidade. Você começa a entender a leitura dela do espaço, e começa a mudar essa leitura também", diz a professora. "As crianças têm que se tornar visíveis na cidade, é preciso que os adultos olhem pra elas com corresponsabilidade."

Mas isso não é mais fácil em áreas com maior e melhor urbanização, calçadas mais largas, menos movimento ou mais sinalização? De fato, pode ser mais tranquilo, sim, e é fundamental pensar o que faz sentido em cada canto. A experiência de Carol em regiões heterogêneas, no entanto, mostra que independente da infraestrutura (que quase nunca é a devida), fazer-se presente no espaço público é importante onde quer que se ande. "Tem dois tipos de transformação: a da pessoa dentro do carro que vê as crianças andando a pé; e a de quem está na rua e começa a questionar por que há mais carro que gente, uma vez que somos todos pedestres. A gente tem certeza que isso é uma formação de cidadania", diz a professora.

Para saber mais sobre o Carona a Pé, e acompanhar as novidades, acesse a página do projeto: www.facebook.com/caronaape.

Sobre a autora

Adriana Terra é jornalista e gosta de escrever sobre a cidade e sobre cultura. É co-criadora da série “Pequenos Picos”, mapeamento afetivo de comércios de bairro da capital paulista, e mestranda em Estudos Culturais na EACH-USP, onde pesquisa lugares e modos de vida. Foi criada em Caieiras e há 15 anos vive no centro de São Paulo. Na zona noroeste ou na Bela Vista, sempre que dá, prefere ir caminhando.

Sobre o blog

Dicas de lugares, roteiros, curiosidades sobre bairros, entrevistas com personagens da cidade, um pouquinho de arquitetura e mais experiências em São Paulo do ponto de vista de quem caminha.