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Cinco hábitos para tornar a cidade a pé um lugar mais legal

Adriana Terra

02/01/2019 10h55

Há algumas semanas escrevi nas redes sociais sobre o modo como muitas pessoas enxergam viajar sem carro para pontos próximos, tipo o litoral do Estado, como se andar de ônibus e se locomover a pé pelos lugares fossem coisas estranhas, chatas, ou então perda de tempo.

Apesar de vivermos em uma sociedade que valoriza bastante o carro — e, dada a forma desigual como a cidade está desenhada e o ritmo acelerado no qual muitos vivemos, o automóvel ser de fato funcional –, a realidade é que a maioria das pessoas usa transporte público e anda a pé. Essa pesquisa divulgada nas últimas semanas mostra exatamente isso: andar a pé é a principal forma de se locomover na Grande São Paulo.

E se o nosso transporte público tem problemas e as nossas calçadas, bem como iluminação das ruas, nem sempre ajudam, o lado bom da mobilidade a pé é que ela é janela para outras formas da gente circular na cidade. Como disse a urbanista Gabriela Callejas, falar de mobilidade a pé é falar sobre a cidade de forma ampla: de igualdade de direitos, transporte público, de infraestrutura, valorização local e descentralização.

A partir dessa premissa, resolvi fazer uma lista com cinco sugestões de hábitos simples que podem tornar as caminhadas e os deslocamentos por São Paulo mais agradáveis e proveitosos. São observações pessoais, considerações que venho tecendo a partir tanto de caminhadas quanto de entrevistas que fiz neste ano que passou para o blog e leituras cruzando áreas e saberes. A ideia é que ela seja inspiracional e moldável, como penso que nossa experiência na cidade deve ser.

Vá pela rua de cima.
Não é preciso muito para variar o trajeto: ir pela rua de cima, descer em outro ponto ou estação de metrô, tudo isso é legal para entender a vizinhança, olhar casas, árvores, pessoas, para entender onde a gente vive, os problemas e as belezas dali. Em um papo que bati nesse ano com o pessoal do Caminhada das Quebradas, eles falaram exatamente sobre isso: "Para conhecer o macro você tem que conhecer o micro. A rua de casa, o seu bairro, sua região".

Ouvir música é legal, mas ouvir o som ambiente da rua também é.
Difícil quem não esteja de fone na rua ou no transporte hoje em dia, mas por vezes se ligar no barulho externo — sejam as conversas, a música ambiente do metrô, o radinho dos ambulantes, um pássaro, uma janela fechando — também é legal para imaginar como as pessoas ocupam a cidade. Inspirado nas andanças do poeta Mário de Andrade, um projeto no CCSP criou recentemente um mapa sonoro de São Paulo, a partir de gravações pelo espaço urbano.

Pense trilhas sonoras para os lugares.
Outra coisa com som que eu faço quando não estou muito a fim de ouvir o mundo externo é colocar músicas pensando nos lugares pelos quais estou passando. Enxergando a cidade como cenário, a música como trilha, em um exercício divertido de ficção urbana. Para quem gosta da ideia, vale conhecer esse experimento delicioso da cantora Alessandra Leão, que grava vídeos lindos cantando em lugares diversos da cidade.

Visite amigos que moram em bairros diferentes. 
Esse é um hábito que eu adoro e passei a valorizar depois de certa idade. Pensando no tanto de bairro que eu não conhecia em São Paulo, muitas vezes por falta de tempo, passei a entender aquele rolê de atravessar de uma zona a outra para visitar os amigos ou família como uma oportunidade de conhecer mais a cidade, curtindo o trajeto sem pressa: outras ruas, outra coxinha de padaria, outras árvores, outras arquiteturas, outro açaí, outra linha de ônibus, outro tipo de comércio, outros hábitos… Ixe, varia muito de lugar para lugar em uma cidade como São Paulo.

Pergunte mais o caminho para as pessoas na rua.
Outro dia fui abordada, na região da República, por um cara que queria saber como chegava na estação da Luz. Falei que ele podia pegar o metrô logo ali e ele: "Não, vou andando". Ensinei o caminho, o que me fez parar para pensar que existiam vários caminhos — falei do mais longo, falei do mais curto –, e fiquei refletindo sobre como a gente deixou de fazer isso, auxiliada pelos mapas nos celulares, e como isso é um exercício bom de compreensão do espaço. Sem falar que falar com os outros me parece, sempre, a melhor forma de ter empatia, o que por si só já vale o rolê.

Sobre a autora

Adriana Terra é jornalista e gosta de escrever sobre a cidade e sobre cultura. É co-criadora da série “Pequenos Picos”, mapeamento afetivo de comércios de bairro da capital paulista, e mestranda em Estudos Culturais na EACH-USP, onde pesquisa lugares e modos de vida. Foi criada em Caieiras e há 15 anos vive no centro de São Paulo. Na zona noroeste ou na Bela Vista, sempre que dá, prefere ir caminhando.

Sobre o blog

Dicas de lugares, roteiros, curiosidades sobre bairros, entrevistas com personagens da cidade, um pouquinho de arquitetura e mais experiências em São Paulo do ponto de vista de quem caminha.