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Guia quer discutir como construir uma São Paulo mais justa para as mulheres

Adriana Terra

13/05/2019 11h19

Protótipo do guia, que será ilustrado pela artista Catarina Bessel. Imagem: Divulgação.

Esperar um ônibus em uma grande avenida no fim da noite. Voltar a pé para casa sem ter de pensar muito no caminho. Ter mais creches públicas espalhadas pelo território. Ter mercados próximos de terminais de transporte. Atravessar a rua sem correr com uma criança no colo. Ver outras mulheres representadas em nomes de vias e perceber que suas trajetórias são valorizadas. Poder amamentar tranquilamente em um banco de praça.

Pode não ser óbvio para todos, mas a cidade não é vivida pelas mulheres da mesma forma que pelos homens — e, evidentemente, classe social, cor da pele, idade, identidade de gênero, orientação sexual e deficiências físicas interferem dentro desse recorte. Isso pode ser percebido em situações-problema como as descritas acima, levantadas por quem estuda o assunto: de percepções sobre segurança até um planejamento urbano que por vezes não leva em conta o ritmo de vida de mulheres que se ocupam do trabalho doméstico além do trabalho gerador de renda (lembrando que mulheres ainda são as maiores responsáveis pelos afazeres da casa), passando pela representatividade nos espaços comuns.

Pesquisa da Rede Nossa São Paulo junto ao IBOPE divulgada em março mostrou que o transporte público é o local em que as mulheres mais temem assédio. Outra pesquisa, feita pela agência Pública, revelou que 93% delas evita andar na rua à noite, e que 63% já mudou o trajeto para evitar violência de gênero. Já o Atlas da Violência de 2018 mostra como as mulheres negras são mais alvo de estupro do que as brancas.

Mesmo diante de um panorama pouco amigável, são as mulheres as que mais andam a pé e usam transporte público na capital paulista. Artigo recente da ONG Sampapé discute o fato de, apesar de serem maioria nesses deslocamentos, elas pouco decidirem sobre planejamento urbano.

Pensando na importância de evidenciar essas questões para estimular uma transformação de cenário, as mulheres do Formiga-me, plataforma de produção de conteúdo sobre o espaço público, resolveram lançar o projeto do Guia Mulheres na Cidade.

"Conversando entre a gente e com amigos, começamos a perceber que as nossas experiências não são as mesmas dos homens", conta Carmen Guerreiro. "Acho que tem esse despertar que a gente está tendo como sociedade sobre as questões que as mulheres sofrem, de violência doméstica até o espaço da rua", diz Fernanda Carpegiani.

Grupo em reunião para planejar o guia. Foto: Divulgação

A dupla se juntou a outros coletivos para pensar o projeto do guia, em fase de financiamento coletivo. "A gente não tem a ilusão de ter a noção do que é ser mulher como um todo. São Paulo é muito diversa e tem muitas São Paulos dentro dela. Então quando a gente decidiu falar sobre mulheres na cidade, decidiu também que não poderia ser só a gente", explica Carmen. Entre essas parcerias, estão a escola e agência de jornalismo voltada para jovens (em especial periféricos) ÉNóis, a revista AzMina e a ONG Sampapé, além do site Papo de Homem. "Resolvemos incluir os homens no debate, porque achamos que quem faz parte do problema faz parte da solução", diz Carmen.

A publicação deve contar com dois formatos de conteúdo: um mapeamento de mais de cem locais físicos que contemplem iniciativas feitas por mulheres com um olhar para a igualdade de gênero, em diversos setores (saúde, maternidade, educação, empregabilidade, participação social, estética); e uma série de reportagens e artigos discutindo espaço público, planejamento urbano, participação política. "A gente acredita que uma cidade melhor para mulheres é uma cidade melhor pra todo mundo", resume Carmen.

Carmen e Fernanda frisam que essa é uma iniciativa muito aberta para a participação pública, por isso o formato do financiamento coletivo, e não vinculado a uma empresa — "inclusive a gente acha legal chamar as pessoas para apoiar, porque é uma forma delas participarem caso haja interesse pelo projeto". O Mulheres na Cidade tem promovido ainda rodas de conversa: para os interessados tanto em saber mais sobre o guia quanto em conversar sobre gênero e cidade, a próxima ocorre no dia 25 de maio, na rua Frei Caneca, na Bela Vista.

Sobre a autora

Adriana Terra é jornalista e gosta de escrever sobre a cidade e sobre cultura. É co-criadora da série “Pequenos Picos”, mapeamento afetivo de comércios de bairro da capital paulista, e mestranda em Estudos Culturais na EACH-USP, onde pesquisa lugares e modos de vida. Foi criada em Caieiras e há 15 anos vive no centro de São Paulo. Na zona noroeste ou na Bela Vista, sempre que dá, prefere ir caminhando.

Sobre o blog

Dicas de lugares, roteiros, curiosidades sobre bairros, entrevistas com personagens da cidade, um pouquinho de arquitetura e mais experiências em São Paulo do ponto de vista de quem caminha.