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Mário de Andrade, caminhadas, rádio e um mapa sonoro de SP

Adriana Terra

21/11/2018 07h32

Foto: www.facebook.com/CCSPAcaoCultural

Ambulantes no trem, a campainha do elevador, o sino da igreja, a voz de uma pessoa pregando emendada por um trio tocando Luiz Gonzaga a poucos metros dali, a versão de "Bella Ciao" no ato #EleNao, cânticos católicos, uma batalha de rimas, o carro dos ovos passando na rua — "é quareeenta, quareeenta ovos você só paga dez reais", grita o narrador, enquanto ouvimos trechos do poema "Quando eu Morrer", de Mário de Andrade, nos intervalos dessa paisagem sonora complexa, tão bonita quanto exaustiva, atual.

Dez minutos de uma cidade com muitas camadas compõem o programa resultado da oficina Caçando Sons de SP, parte de uma programação especial do CCSP a fim de lembrar os 80 anos da viagem pelo Norte e Nordeste brasileiros organizada pelo escritor Mário de Andrade.

"Propomos desenterrar o projeto de Mário de Andrade, a Missão de Pesquisas Folclóricas, que foi interrompida. Sua ideia era eternizar os sons do Brasil. Hoje, 80 anos depois, caçando sons de SP, devolvemos vida aos sentidos surdos do paulistano", diz uma voz ao fim do programa editado com sons captados na oficina.

Dois meses atrás, antes de a iniciativa acontecer, bati um papo com uma das organizadoras, a radialista e produtora cultural Biancamaria Binazzi. "O que a sonoridade da cidade diz sobre o nosso tempo, sobre a política, sobre o mundo? Talvez atualizar isso, gravar os sons da cidade. Os sons não só de manifestações humanas, mas o trânsito, o sabiá laranjeira que só pia às 2h da manhã", disse ela na ocasião.

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Como resultado desse exercício de caminhar atento aos sons, tanto um programa de rádio foi produzido quanto um mapa pontuando os locais onde cada áudio foi registrado. Além de revelar ocupações e usos da cidade, eles cumprem o sentido mágico do rádio, dando margem a imaginação. Difícil ouvir sem visualizar cada universo, o rosto de quem está falando, o ambiente em que foi gravado, a situação.

A ideia, segundo Bianca, é que essa cartografia continue a partir do que já foi costurado nesse pequeno período.

Sobre a autora

Adriana Terra é jornalista e gosta de escrever sobre a cidade e sobre cultura. É co-criadora da série “Pequenos Picos”, mapeamento afetivo de comércios de bairro da capital paulista, e mestranda em Estudos Culturais na EACH-USP, onde pesquisa lugares e modos de vida. Foi criada em Caieiras e há 15 anos vive no centro de São Paulo. Na zona noroeste ou na Bela Vista, sempre que dá, prefere ir caminhando.

Sobre o blog

Dicas de lugares, roteiros, curiosidades sobre bairros, entrevistas com personagens da cidade, um pouquinho de arquitetura e mais experiências em São Paulo do ponto de vista de quem caminha.