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Vila Buarque, Bexiga e Glicério: uma travessia

Adriana Terra

2010-12-20T18:10:25

10/12/2018 10h25

Guias de bairros são legais, mas pensar as cidades com menos fronteiras entre eles pode ser ainda mais divertido — e faz a gente refletir melhor sobre como os lugares foram sendo planejados, modificados, e também se organizando organicamente. Pensando em uma travessia para se fazer a pé (e em regiões que são ótimas para se conhecer caminhando), selecionei três bairros cheios de personalidade para se descobrir no passo.

Vila Buarque – Fica encrustadinho entre República, Santa Cecília, Consolação e Higienópolis, mas tem seu charme particular de biblioteca infantil com campinho de futebol sediando jogos animados nos finais de tarde, confeitaria que serve um almoço delicioso (Little), barzinhos em volta da praça, além de uma série de novos estabelecimentos (lojas de plantas, cafés, banca de livros de artistas). O campeão deles, na minha opinião, é o Tabuleiro do Acarajé (foto abaixo, da página facebook.com/tabuleirodoacaraje), das irmãs baianas Fátima e Miri.

Bexiga – Da Vila Buarque, você pode seguir até a praça Roosevelt pela rua Cesário Mota e atravessar para o Bexiga, pela rua Martinho Prado, parando para uma voltinha pelo ótimo Mercado das Flores ou para um pastel no sacolão bem em frente à ele. Chegando no bairro pela rua Santo Antônio, dá para explorar bem a região: casas do norte que vendem manteiga de garrafa, camarão seco e farinha paraense, um restaurante com uma deliciosa paçoca de carne de sol (Rancho Nordestino), o Vai-Vai, os sambas que correm pela extensão da rua 13 de Maio nas noites de sexta e nas tardes de sábado, subindo o morrinho e chegando em uma floricultura forrada de ramos de eucalipto, em uma feira de antiguidades que rola aos domingos, em um boteco italiano com um bom gin tônica (Catzo Bar) ou em uma casa de cannolis, entre outras coisas que vale a pena descobrir por conta.

Glicério – As regiões do Bexiga e da Liberdade não eram assim tão separadas antigamente. São espaços muito próximos uns dos outros, com coisas em comum — não existissem as grandes avenidas que as cortam, perceberíamos mais facilmente. Da região da Bela Vista para o Glicério, a caminhada é reveladora. Atravessando a Rui Barbosa na altura da praça Dom Orione, pegue a Fortaleza, descubra a charmosa Travessa dos Arquitetos, quebre pelo larguinho Maria José — onde o futebol de rua vive mais forte do que nunca, em um campo assimétrico que sedia um torneio de várzea regularmente –, caminhe um trecho da avenida Brigadeiro Luís Antônio até a rua Condessa de São Joaquim, siga até a avenida Liberdade, corte pela Barão de Iguape até alcançar a rua da Glória, cuja extensão vai te levar ao Glicério. Bairro de casario antigo, com forte presença da nova imigração africana, ele também é território de origem negra na cidade (como o Bexiga) e é local de samba: é lá que aos sábados geralmente ocorrem os ensaios de bateria da Lavapés, mais antiga escola de São Paulo (conheça sua história neste documentário). Ali é ainda região tradicional da cena paulistana do grafite.

Sobre a autora

Adriana Terra é jornalista e gosta de escrever sobre a cidade e sobre cultura. É co-criadora da série “Pequenos Picos”, mapeamento afetivo de comércios de bairro da capital paulista, e mestranda em Estudos Culturais na EACH-USP, onde pesquisa lugares e modos de vida. Foi criada em Caieiras e há 15 anos vive no centro de São Paulo. Na zona noroeste ou na Bela Vista, sempre que dá, prefere ir caminhando.

Sobre o blog

Dicas de lugares, roteiros, curiosidades sobre bairros, entrevistas com personagens da cidade, um pouquinho de arquitetura e mais experiências em São Paulo do ponto de vista de quem caminha.