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A cidade e o samba: há 45 anos, Madeira de Lei faz música na Bela Vista

Adriana Terra

24/06/2019 14h45

Crédito: Lucas Lima

São Paulo tem rodas de samba espalhadas por todas as suas regiões, algumas tão características dos lugares que são quase como marcos geográficos, símbolos daquela parte da cidade. Aliás, tá aí uma boa ideia: conhecer São Paulo por meio de suas rodas notórias. No Bexiga, Bixiga ou na Bela Vista, todo mundo sabe que é na sexta-feira, começo de noite, que a esquina da Conselheiro Carrão com a Treze de Maio se enche de gente para ouvir o grupo Madeira de Lei.

Fundado há 45 anos por Namur Scaldaferri (voz e tamborim), nascido e criado na rua São Vicente, músico e também compositor, autor de sambas vencedores do Vai-Vai (como "Na Arca de Noel", de 1978, e "Amado Jorge", de 1988), o grupo vem se apresentando a céu aberto, de forma gratuita, na última década nesse mesmo espaço. Na formação atual estão Reinaldo Moura (cavaco e voz), Zezinho (reco-reco), Klebinho Miranda (violão e voz), Almir (rebolo) , Milton (banjo), Marcelo Emídio (tantan e percussão geral), Patrick (pandeiro, percussão geral), Ricardo Moura (percussão geral). A produção é de Carla Borges, que também dá uma canja cantando na roda, companheira de Namur e também criada no bairro, onde chegou com apenas dez dias de idade de Minas Gerais, junto de sua família.

Organizados na calçada com o público em volta, o grupo entoa Martinho da Vila, Paulinho da Viola, Elton Medeiros, Fundo de Quintal, Belo, Beth Carvalho e, claro, o poeta que imortalizou o bairro em questão em suas letras, Geraldo Filme.

Vira e mexe o samba do Madeira, ou samba da 13, tem participações especiais, como de Osvaldinho da Cuíca, Zeca do Cavaco. Osvaldinho esteve lá na última sexta-feira (21), quando o grupo organizou um ato: "o samba fica", dizia o manifesto. O ator Sérgio Mamberti e a deputada estadual e sambista Leci Brandão (PCdoB-SP) apoiaram em vídeos.

A manifestação ocorreu porque eles têm enfrentado dificuldade com parte dos comerciantes e alguns moradores da região. Uma notificação alega que o samba deteriora o entorno, com lixo na rua, circulação e uso de drogas — questões que, por ali, são mais complexas do que um único evento. Por outro lado, muitos moradores fizeram abaixo-assinado a favor da permanência do samba. Fato é que a notificação pesou na conta do grupo, que encerra as apresentações por volta das 23h (e começa o som apenas ao término da missa na Igreja da Achiropita, ali em frente). Viaturas cercando a roda têm sido constantes no último mês. Namur diz que nunca foi fácil fazer samba na rua: "na época da ditadura então você apanhava".

Namur à frente do Madeira de Lei; Carla ao lado esquerdo. Crédito: Lucas Lima

"Eu comecei no samba por causa das escolas, por causa do Fio de Ouro [cordão carnavalesco que existiu na Bela Vista até 1972]. E eu aprendi a gostar…", conta Namur. "Naquela época [anos 1970] tinha muita casa noturna aqui: Telecoteco, Balacobaco, Igrejinha, Catedral do Samba, Boca da Noite, Jogral. Tudo casa de samba."

Mais recentemente, eles vêm querendo tornar o samba da 13 patrimônio cultural imaterial da cidade, ajudando a fortalecer e também organizar a roda ali. Tramita na Câmara desde novembro de 2018 um projeto de lei do vereador Toninho Vespoli (PSOL) pleiteando o posto para o samba que é ponto de encontro de tanta gente às sextas na região central de São Paulo.

"A proposta é manter a cultura do samba viva no Bexiga e viver do que gosta", explica Carla. "O legal de estar na rua é manter a tradição, é quase uma queda de braço. E também propiciar para quem tem dinheiro curto, ou não tem dinheiro, curtir", completa Namur.

Quem nunca viu, vai no Bexiga pra ver: o samba, até o momento, ocorre toda sexta-feira, a partir das 19h, na altura do número 507 da rua 13 de Maio. E para quem quer ler mais sobre samba e espaço público em São Paulo, as origens e tensões (que não vêm de hoje), vale conhecer a pesquisa do historiador Bruno Sanches Baronetti.

Sobre a autora

Adriana Terra é jornalista e gosta de escrever sobre a cidade e sobre cultura. É co-criadora da série “Pequenos Picos”, mapeamento afetivo de comércios de bairro da capital paulista, e mestranda em Estudos Culturais na EACH-USP, onde pesquisa lugares e modos de vida. Foi criada em Caieiras e há 15 anos vive no centro de São Paulo. Na zona noroeste ou na Bela Vista, sempre que dá, prefere ir caminhando.

Sobre o blog

Dicas de lugares, roteiros, curiosidades sobre bairros, entrevistas com personagens da cidade, um pouquinho de arquitetura e mais experiências em São Paulo do ponto de vista de quem caminha.

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